Rezadeiras na rede

sexta-feira, 28 de maio de 2010

por Carine Caitano


A plateia do Sylvio Monteiro está diferente da usual. Sempre lotado de jovens agentes culturais, hoje o lugar está repleto de senhoras. Coloridas e com adornos na cabeça, fazem contraste com as também ouvintes alunas da Escola Municipal Manuel João Gonçalves, em Nova Iguaçu. O evento, divulgado anteriormente pelo culturani, é uma homenagem às rezadeiras da cidade e lançamento do site Senhoras Rezadeiras, idealizado pelo ativista do movimento negro Geraldo Bastos.
    
    
João Carlos Araujo, pastor batista, deu início à cerimônia citando passagens bíblicas que servem de embasamento para o trabalho das rezadeiras. Em seguida, Babalawo André explica o processo de espiritualização das rezadeiras. Segundo sua cultura, elas têm o dom da cura, que precisa ser desenvolvido.
O próximo momento é de reverência e alegria. No palco, a cantora Tereza Onam exibe sua potente voz e é acompanhada com palmas pela plateia. Simultaneamente, as  rezadeiras vão pegar os certificados. Simbólico, ele é um agradecimento ao trabalho dessas senhoras. Todas elas cantam alegremente pedindo proteção e dançam, enquanto a imprensa registra o momento.


Figuras
Encerrada a cerimônia, vou ao encontro das estudantes da Rede Municipal de Ensino. Empolgadas, foram sob a tutela da professora Cristiane Revoredo. São seis meninas, todas do 6º ano de escolaridade, entre 10 e 11 anos. Paula de Oliveira é a primeira a falar. "Viemos pra aprender um pouco mais da cultura das rezadeiras, saber como é o cotidiano, saber se elas gostam, do que fazem..." Luana Néria gostou da experiência: "Foi muito bom. Nós já fazemos parte de dois projetos: 'Se liga, comunidade' e 'Brasil - Angola: coisas de lá, coisas de cá', então sempre aprendemos coisas diferentes". Amanda Batista, a mais velha, conta sua história como se narrasse uma novela: "minha mãe não queria que eu viesse. Mas, claro, falei que ia me ajudar na escola e que eu ia aprender diferentes culturas. Chorei um pouquinho também. Mas valeu a pena, aqui estou eu". A professora observa a cena e dá boas risadas: "Elas são umas figuras!". 

No pátio do Sylvio Monteiro o clima era de festa. As saias coloridas das rezadeiras formaram um grande círculo e todos cantavam empolgados, giuados pela cantora. O repertório escolhido atendia a todas as crenças, além de ser popular e cotidiano. O público, que antes se manteve sentado, prestigiando o evento, agora estava em pé, entrando no clima do samba no pé das senhoras rezadeiras e aproveitando o delicioso coquetel. É perto da mesa de frios que esbarro na Dona Vilma Dias. Rezadeira há mais de 30 dos seus 63 anos, ela afirma que todos podemos fazer orações e preces, mas apenas alguns são contemplados com esse dom, que só precisa de um "empurrãzinho" para aflorar. A rezadeira também compartilha um fato incrível: já ficou doente de tanto rezar! Por tantas preces e pelo compromisso com a tarefa, quando moça, dona Vilma chegou a adoecer e quase foi proibida pela mãe de continuar com as orações. Mas quando as mesmas orações a fizeram melhorar, sua mãe compreendeu que aquele dom deveria ser compartilhado.

Negra, com cabelos cacheados e volumosos, pés no chão e cerveja na mão, Tereza não parece estar longe de casa. Ainda recuperando o fôlego após tanta dança, a cantora fala do prazer que é cantar pra essas senhoras: "Elas são um exemplo de vida e cantar é minha vida! Estou adorando".

O site das Senhoras Rezadeiras já está no ar, você pode conferi-lo clicando aqui.


1 Comentários:

Me sinto feliz em ter participado desse tão maravilhosos evento, podendo compartilhar com as benzedeiras, que o ato utilizado por elas que podemos chamar de imposição de mãosm não é uma coisa simples, nem diabotizada como muitos pensam , mas que é milenar, utilizada no egito, na india, em roma.
Dizer também, que a bíblia é um livro onde essa prática e utilizada por muita gente e principalmente por Jesus Cristo.
Esepro ter contibuido.
Pr João Carlos Araujo

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