Rumo a Paris

quarta-feira, 5 de maio de 2010

por Renato Acácio

Quem vê o espevitado Vítor Lopes, com seu visual andrógino e escandaloso, figura fácil nos eventos de cinema e cultura de Nova Iguaçu e redondezas, não imagina a trajetória do menino que deu um show de espontaneidade, histeria e simpatia no último Iguacine, quando foram anunciados os dois prêmios do seu filme “O que vai ser?”. Quem frequenta o Cineclube Buraco do Getúlio, que ocorre todo primeiro sábado de cada mês no Espaço Cultural Sylvio Monteiro, já conhece suas performances cômicas e eróticas.

A ligação de Vítor Lopes com a arte e especificamente o cinema vem de muito cedo. “Desde a sétima série eu já tinha em mente que queria cursar a faculdade Televisão e Vídeo, que é como o curso era chamado na época”, conta ele, que aos 24 anos está cursando comunicação social com habilitação em cinema na PUC e é morador de São João de Meriti.


Entretanto, o talentoso menino trilhou um longo caminho até conseguir começar a fazer o que ele realmente queria na sua vida. A começar pelo seu próprio temor em relação ao futuro incerto, atribuição essa que é ainda ligada à carreira, talvez pela crise do setor na década passada. Há ainda a oposição dos pais. “Eles viam o curso e a profissão como coisa de gente ‘vagabunda’, que não gosta de trabalhar e de estudar. Não os culpo nem nada, acho que a maioria dos pais não fica lá muito feliz quando o filho escolhe estudar cinema”, conta ele, que diante disso resolveu fazer um curso preparatório para a Escola Superior de Formação de Oficiais da Marinha, em 2003. Depois de passar no concorridíssimo concurso, Vítor conta que não conseguiu ficar na escola mais do que dois dias. “Eu me dei conta que eu não poderia continuar lá dentro primeiro porque eu passaria quatro anos estudando administração, dentro do sistema militar. E segundo porque, depois de formado, já ganhando um salário razoável, e com pouco tempo livre, seria muito difícil (devido à comodidade) eu me dispor a fazer a faculdade de cinema.”

Proposta irrecusável
Depois da frustração, Vítor conta que voltou a estudar para o vestibular, porém mais uma vez enfrentou o preconceito dos pais em relação à área que ele queria, o que o levou a fazer Física na UERJ. Algum tempo depois de iniciados os estudos, Vítor teve uma proposta que parecia irrecusável: sua tia abrira um restaurante e o chamou para trabalhar lá, e uma vez estabilizado o negócio, ela custearia o curso de cinema, ficando assim livre para fazer o que queria, independente da vontade dos pais. Entretanto, o restaurante faliu em 2008 e ele, por não estar fazendo o que realmente queria, largou a faculdade.

Sendo assim, ele começou em março de 2008 o curso de cinema da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, no distrito de Miguel Couto, que estava fazendo o ciclo “Documentários” naquele ano. Por problemas de horários com seu trabalho de professor de inglês, acabou não concluindo o curso. Mas fez questão de continuar na atividade com oficina de cinema CineTela Brasil, que oferecia e ainda oferece todos os anos aulas de roteiro, produção, operação de câmera e edição. “Foi nessa oficina que eu participei pela primeira vez de uma produção cinematográfica. O meu grupo realizou o curta “Caminhos”, um documentário que registrou a busca de um rapaz pela sua mãe biológica. Eu fiquei responsável por recolher imagens de apoio durante as filmagens, como um making of”, explica com nostalgia.

Em 2009 finalmente ele conseguiu fazer o que sempre quis depois de seis anos. Vítor foi aprovado pela seleção do PROUNI para cursar Cinema na PUC-Rio, com bolsa integral, realizando seu antigo sonho de fazer Cinema. No terceiro período da faculdade, ele já dirigiu um filme (“Gah”, disponível no site de vídeos Youtube) e uma vasta e versátil participação em inúmeras produções. Atualmente ele está organizando sozinho um concurso de roteiro na sua faculdade, correndo atrás de apoios e divulgando o concurso e também participa da equipe do Buraco do Getúlio. Com seu jeito escandaloso e engraçado, Vítor dá um toque pra quem também enfrentou os mesmo problemas que ele, tanto para fazer cinema ou qualquer outra aérea não tão bem vista pelo senso comum. “Não seja burra! A vida é só uma! Corre atrás do que você realmente quer! Um brinde! Nos vemos em Paris!”.

2 Comentários:

Marina disse...

Me sinto privilegiada por ter acompanhado esta longa trajetória de Vitor Lopes. As performaces escandalosas e eróticas dele me proporcionaram bons momentos surreais na minha vida.Adorei teu conselho, amigo. E mais: Veremos-nos em Paris, bebendo champagne, lindas, na Torre Eiffel.

Vitor disse...

Fato!

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