Coexistência pacífica

terça-feira, 13 de julho de 2010

por Abraão Andrade

Há quem não acredite em mandingas, feitiços ou sortilégios. O senso comum é rico em separações muitas vezes imperceptíveis a respeito do uso de práticas ditas "pagãs" dentro da religião tradicionalmente cristã. Com 73,8% de católicos, o Brasil conta com um grupo de pessoas que assimilaram as tradições dos seus antepassados e atrelaram a ela o elemento fundamental que dá cara ao país: a diversidade.

Dentro desse contexto, surgem as mantenedoras da tradição popular, que também são agentes do sincretismo religioso. Majoritariamente mulheres e idosas, as rezadeiras são dotadas de uma luz divina capaz de curar as enfermidas espirituais e físicas.

A prática remonta ao período colonial, e estava ligada à ausência de médicos na zona rural, especialmente no nordeste, onde ainda há um grande contigente de rezadeiras.

A cura espiritual assemelha-se a uma consulta médica, podendo incluir “receitas” para a conclusão do trabalho, como óleos, chás e banhos de ervas.

A prova do sincretismo promovido pelas rezadeiras é que os estados em que elas são maioria são também os estados mais católicos do Brasil. Nesses estados, já ocorreram movimentos advindos das camadas populares pela oficialização dessa tradição e projetos de lei encaminhados a suas respectivas câmaras pelo tombamento das rezadeiras. Em Nova iguaçu, já tramita um projeto de lei, protocolado pelo vereador Ferreirinha, e inicialmente idealizado por Geraldo Bastos, presidente do Condedini.

Segundo o idealizador, a aprovação do projeto é de suma importância. “A oficialização é do ofício de rezadeira tradicional. Este ato do poder público é um reconhecimento da sua importância social, evitando sua extinção", afirma Geraldo Bastos, para quem elas deveriam ministrar cursos de capacitaçao sobre a utilização das ervas na rede pública.

Segundo ele, o uso das rezadeiras como agentes de saúde traria mudanças para toda a comunidade. Apesar de ser um recurso utilizado majoritariamente pelas camadas menos abastada, a classe média também acredita na reza dessas senhoras.

Geraldo Bastos salienta a necessidade do projeto para a inclusão social das rezadeiras : “Elas estão em sua grande maioria localizadas na periferia da cidade, possuem idade avançada e sofrem discriminações com o aumento da presença de religiões neopentecostais”.

A patrimonização de hábitos culturais abre espaço para a inserção de grupos que fomentam o modo de vida do brasileiro. "Tais medidas servem para fazer com que o povo se enxergue e se sinta parte de uma unidade", afirma Geraldo Bastos. Para o presidente do Condedini, a quebra de tabus e conceitos obsoletos pode deixar de lado visões ultrapassadas que só servem para conturbar a relação entre povos que compartilham mais semelhanças que diferenças. "Isto é uma outra característica que deve ser mantida e oficializada entre pessoas de crenças diferentes, que é a coexistência."

2 Comentários:

nati_vr disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
nati_vr disse...

Ficou ótima essa reportagem.
Concordo que o tombamento seja de suma importância para que essa prática de rezadeiras não deixem de existir e fiquem na história, perpetuando o conceito de curas a base de rezas e remedios alternativos.
Adorei o texto.

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