Donos do pó

terça-feira, 27 de julho de 2010

por Yasmin Thayná


Nas últimas noites de julho, a cidade de Nova Iguaçu tem tido várias lembranças. Na noite seguinte ao lançamento do romance ‘Lembrancinha do Adeus’, do escritor pernambucano Julio Ludemir, houve a ‘lembrancinha do Pó de Poesia e Entrelinhas.’

O Espaço Cultural Donana, em Belford Roxo, recebeu no último sábado amigos, poetas, escritores, músicos, enfim, artistas. Apesar de eventos como este contar sempre com adultos, dessa vez não foi assim. As crianças invadiram esse universo e viram os pós de poesia caírem sobre o chão daquele dia.

Além do poeta Jorge Cardoso, marcaram presença no sarau Sergio Salles, do Gambiarra Profana, e Márcio Rufino, do Pó de Poesia. O que mais chamou atenção do público, tanto infantil quanto adulto, foi a performance desses artistas, que recitaram seus poemas tão vontade como se estivessem em casa. Eles pulam, gritam, balançam as pessoas, caem no chão quando estão recitando. É uma dinâmica diferente e interessante que eles adotam, quebrando a monotonia da leitura.

“O entrelinhas é uma paixão”, diz a professora e poeta Ivone Landim, que não precisa fazer maiores esforços para conciliar o seu lado professora, com os alunos atuais, e o seu lado poeta, com seus ex-alunos.

O grupo surgiu em 1999 na FAETEC, Unidade de Quintino no colégio República. Ivone já tinha criado o Centro Cultural República e a poesia era um mecanismo de expressão por intermédio do qual os alunos podiam lançar suas angústias, sensibilidades, paixões e ideologias. “O meu objetivo sempre foi relacionado à possibilidade de eles enxergarem que a poesia é um instrumento de vida porque a arte é terapêutica. Ela pode curar sim,” revela.

Espaço de discussão
Presidente do Conselho Municipal de Cultura de Nova Iguaçu, Ivone Landim não poderia deixar de trazer o projeto para a João Luiz do Nascimento, a Unidade de Nova Iguaçu da FAETEC. Os alunos participam selecionando, editando, eviando e divulgando a poesia que eles, os professores e outros poetas do Movimento Cultural da Baixada Fluminense. "O Entrelinhas abre um espaço de discussão na sociedade e desenvolve a consciência cidadã dos estudantes", afirma Landim.

Como é distribuído gratutitamente em todos os intervalos das aulas, o Entrelinhas permite que os alunos leiam e se interessem a mandar poesias para que na próxima edição as suas possam ser publicadas. Assim vai se espalhando e propagando muitos pós de poesia na educação e posteriormente na sociedade.

E o Pó de Poesia é um grupo que reúne poetas de Nova Iguaçu, Belford Roxo e Mesquita, que pretende, através dessa movimentação artística, fazer intervenções na escola e nas praças, entre outros lugares. É mais um mecanismo que espalha a sensibilidade humana, agora, pela cidade.

Esses dois projetos se encontram a partir do momento que o aluno termina seus estudos e quer continuar espalhando ‘Pó de Poesia’ nas ruas. Então ele entra em um grupo que já tem um número grande de produtores.

Proposta
A proposta do ‘Pó de Poesia’ é ser itinerante. O Centro Cultural Donana, assim como as praças e o Espaço Cultural Sylvio Monteiro, abrigam os encontros dos donos do pó.

culturani: Quem é essa Ivone que espalha, dorme, acorda, toma, respira e vive poesia?

Ivone Landim: Ah! Essa Ivone é uma “andarilha da arte”. Na verdade, também especialista em arte-terapia. E acredito fielmente que a poesia, como todas as expressões artísticas, cura. Elas trazem conteúdos do nosso imaginário que a gente pode, em muitos momentos, estar proporcionando, possibilitando um viés de cura. Acredito não só na opção poética como também na ciência. Essa Ivone se autoexperimenta dentro da arte. Então eu digo que a poesia é terapêutica porque eu experimentei primeiro.

Digo que o recorte e colagem são terapêuticos porque eu sei que quando eu estou fazendo isso, a minha mente fica vazia. É uma forma de estar meditando. A minha forma de meditar é estar trabalhando com o recorte e colagem. Eu sou pintora, não sou artista plástica, uso esse mecanismo para a serenidade também. E de mim para o outro é uma troca. Experimento a arte no outro também. É uma arte visceral. Essa Ivone tem essa arte visceral. Ser uma educadora que está preocupada com esse amanhã de sensibilização. O ‘João Luiz e as Paredes’ é um projeto que eu faço nessa escola onde eu converso com os alunos através das paredes. Eles até comentam que eu, agora que sou coordenadora pedagógica, não estou nas salas de aula. Mas nas paredes, eu sempre estou ensinando, dialogando com os meus alunos. Porque eu me entendo como pessoa dentro da arte e educação. Acho que não tem como desassociar cultura de educação até porque é a cultura que cria o tipo de educação em uma determinada época, em um determinado momento.
Exposição "Colagem Poética" no Donana, por Josy Antunes

8 Comentários:

Marina G [novo] disse...

A arte é um dos melhores remédios para qualquer doença! Inclusive a falta de humanidade em que nos encontramos.
Imagine então somar arte + amor + dedicação? O resultado será trabalhos belos como este. E pessoas cada vez mais humanas.
Que esse Pó se espalhe facilmente por aí! :D

Ótimo texto Yayá.

Fernanda disse...

Muito bom Yayá ! Profissa ! =D (L)

marcos disse...

Ivone ,próxima secretária da cultura de NI .
ótimo texo yayá .

marcos disse...

texto rs

João disse...

Com certeza! Aguardo ansioso pelo dia da posse de Ivone Landim na Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, essa mulher é maravilhosa! Força!

Marcio Rufino disse...

Querida Yasmim,

Muito obrigado pelo carinho. O texto está maravilhoso. Te agradeço em nome de todos os integrantes do Pó de Poesia. Bjs!!!

Josy Antunes disse...

O primeiro aniversário do Pó de Poesia está nos nossos arquivos: http://jovemreporter.blogspot.com/2009/08/um-ano-de-po.html

Ivone Landim disse...

Agradeço pelo carinho e como educadora fico feliz em ter na minha cidade jovens tão compremetidos com a cultura e educação .Esse é o legado que vai ficar para os jovens do nosso presente -futuro.Parabens!Em nome dos coletivos:Entre Linhas,Pó de Poesia ,Gambiarra Profana , Folha Cultural Pataxô e o Centro Cultural Donana.Por fim toda essa festa poética é dedicada aos meus alunos que como vs estaram ajudando a mudar o olhar de mundo.

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