Cidade de Lego

terça-feira, 10 de agosto de 2010

por Joaquim Tavares


Quem já foi a Brasília sabe como é a cidade: tem um clima muito seco nos dois sentidos, o que torna a cidade muito quente pela manhã e muito fria pela noite, além de muito séria também. Chega a dar a impressão de que podemos ser presos a qualquer momento, o que não é verdade; os políticos vivem por lá, fazem o que bem entendem e nada disso acontece. Resumindo, Brasília é uma cidade criada cuidadosamente para ser perfeitamente medíocre – parece que aquilo foi feito para não ser habitado por gente e sim por robôs; dá raiva tanta perfeição e falta aquele toque simples. Olhando para Brasília, lembramos uma cidade de Lego.

Dentro desse cenário um tanto quanto ‘certinho’ aconteceu o 30º ENEPE [Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia], realizado na UnB. Esse encontro tem como objetivo a discussão e o debate de temas relacionados à educação e à sociedade, porém não é só isso.

Um encontro de estudantes sempre envolve um universo à parte por trás de tudo. Nele, abre-se espaço para os reais interesses dos jovens envolvidos no evento, e essa é a grande ironia da história: Brasília, um lugar feito para ser ‘correto’ nos seus mínimos detalhes, ganha um ar de explosão de uma hora para outra.



Nesse universo, barracas espalham-se por todos os lados e ninguém parece se preocupar com qualquer luxo. Toma-se banho frio, independentemente do clima; banho esse que acontece em banheiros mistos, sim... banheiros mistos, com homens e mulheres ao mesmo tempo. Apenas duas únicas coisas são respeitadas nesse tipo de acontecimento: as leis e sua própria vontade, o que, às vezes, gera um certo conflito.

Tudo diferente
Ainda que seja um ambiente feito em prol de apresentações acadêmicas e tudo mais, arrisco-me a falar que se aprendem infinitamente mais coisas do ‘lado de fora’, na parte underground das coisas. Visualize a cena: junte numa faculdade alunos de pedagogia de todos os Estados do país, com culturas diferentes, sotaques diferentes, personalidades diferentes, costumes diferentes, interesses diferentes, enfim, quase tudo diferente. O que você acha que essa mistura maluca dá? Eu responderia que o resultado inusitado disso tudo é educação. A diferença sempre educa!

É claro que nem só de glórias vive uma ocasião dessas. Uns são presos por reivindicações agressivas, alguns não dão a mínima para o respeito. Assim acontecem as brigas, outros por sua vez não sabem nem por que estão ali. Ainda sim, a magnitude de ocasiões desse tipo não é manchada por casos à parte.

Indubitavelmente, tem que ocorrer festas nos encontros estudantis. Um lugar que respira saber o dia inteiro merece algumas horas reservadas para a farra! Além do mais, as festas podem servir como laboratório para a educação – imagina o quanto deve ser interessante um casal formado na festa onde o homem é mineiro e a mulher é baiana. Em contatos assim, surge muita coisa interessante! Além do mais, é necessário um momento de distração para quem quer estar envolvido com a educação – até um livro possui páginas em branco.

A viagem já corresponde uma boa parcela de aprendizado. Do Rio até Brasília são mais ou menos 18 horas de viagem [indo de busão]. Não fazendo nenhum tipo de interação durante esse tempo, você não chega ao destino vivo. Logo, é ali dentro do ônibus que você começa a trabalhar seus métodos pedagógicos.

Conhecer os pontos turísticos da cidade visitada é um ponto primordial de qualquer encontro. Um pouco da história aparece nessas visitas e isso é bem proveitoso. Eu, por exemplo, descobri alguns fatores históricos que fizeram Brasília ser um lugar tão monótono e sem sal. Isso esclareceu bastante coisa e me fez ter um pouco de paciência com aquele lugar.

Uva passa
Não tenho nenhuma richa com Brasília, mas é que sou carioca e não estou acostumado com isso. Preciso de tumulto, gente andando nas ruas, camelôs, shopping barulhentos, enfim, preciso de imperfeições... Foi difícil achar isso lá. Até seu cabelo fica mais liso devido à falta de umidade da cidade. No entanto, essa mesma falta de umidade deixa seus lábios parecidos com uma uva passa... Tá aí um problema!

Mas, voltando para o Congresso em si, há de se levar em consideração o quanto você pode crescer com o que acontece ali. A todo momento há frentes de debates pedagógicos, plenárias importantes que fazem valer a opinião de todos, discussões sobre os próximos encontros, enfim, a educação em sua forma mais conhecida aparece aos montes e quem quiser tira muito proveito disso.

Situações exóticas também marcam presença, como escorpiões encontrados nas barracas de camping ou casais que foram pegos fazendo sexo em locais públicos. Episódios assim são sempre incomuns, mas são um pouco menos em congressos estudantis.

Ir a um encontro educacional como esse é sempre um grande ganho. Aprende-se a todo o tempo com qualquer coisa. Aquilo que você nunca deu nenhum valor, pois achava ser inútil, pode se mostrar uma grande ferramenta para seu aprendizado.

É incrível como num curto período de tempo podem acontecer uma infinidade de coisas. Amizades são feitas e podem perdurar para toda a vida, assim como relacionamentos. Você pode ter grandes lições que mudarão a sua vida em determinado aspecto e, de alguma maneira, você esclarece um pouco as suas dúvidas sobre certas coisas e aumenta sobre outras, sempre pondo em prática o dom da reflexão – o que é fantástico!

Terminado o evento, impossível não sentir vontade de viver um pouco mais daquilo. O universo único ali formado deixa de existir e a realidade o aguarda – sendo que, ironicamente, em certas situações, o melhor do evento foi estar ‘longe’ da realidade. O clima de despedida abate qualquer um. Aquilo que foi sua ‘casa’ por todo aquele tempo, pode ser um lugar que você nunca mais visitará, e mesmo que visite, nunca mais será o mesmo, com as mesmas realizações.

Aparece aí, nesse ‘fim’, a saudade e o receio de não ter aproveitado ao máximo a oportunidade que você teve. Ficam as fotos e as lembranças daquilo que quando acontecera, às vezes, nem era julgado como algo tão importante, mas que provou realmente ser depois de pouco tempo.

Pelo menos, no fim das contas, não foi necessariamente a última vez, ano que vem tem mais. Tudo vai acontecer de novo, mas de maneira diferente, num lugar diferente, com pessoas diferentes, e que dessa próxima vez seja melhor que da última! Só para constar, o ENEPE ano que vem é na Paraíba. Resta alguma dúvida que será bom?

3 Comentários:

Sanaah Souza disse...

Joaquim! Já estava com saudades.. belo texto, bem vindo de novo. Beijos Câmbio desligo!

Mayara disse...

É muito fantastico realmente ter a oportunidade de viver o que é um encontro nacional de estudantes

Rebeca disse...

Você realmente achou escorpião no camping? Ai... mal sabia eu do risco que corria!! Ótimo texto e considerações. Brasília é WAR mesmo!! E bem observado: parece lego! hehehe. Beijos!

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