Uma camelô que veio de longe

terça-feira, 3 de agosto de 2010

por Yasmin Thayná

Nem só de lindos boletins, repletos de dez, nascem o gênios. Que o diga Tassia Malena Leal, uma artista natural do Pará de vinte e dois anos, que aos dozes anos foi morar no Amapá, onde permaneceu até se mudar para Nova Iguaçu há cerca de um ano.

A moça, que sempre ficou em recuperação na disciplina de artes no colegial, acabou de se formar em Artes Visuais pela Universidade Federal do Amapá, com especialização em retrato e caricatura. Tassia veio fazer um mestrado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Minha mãe queria que eu fosse engenheira e meu pai, jogadora de vôlei. Mas eu não sou boa em matemática nem sou alta e eu só sei fazer isso: arte,” diz a artista, que antes da universidade passou oito anos estudando desenho técnico e artístico, pintura a óleo e escultura na Escola de Arte Cândido Portinari, na cidade de Macapá.

Seus primeiros trabalhos foram feitos em épocas de campanha eleitoral, quando levava para casa os panfletos que lhe davam na rua a fim de desenhar os rostos fotografados nos santinhos. Até que um dia o tio resolveu levar seus desenhos para a escola de artes da cidade, onde havia um teste de habilidade específica. “Os desenhos me dispensaram do teste.”

Camelôs
Tassia Leal saiu pelas ruas para desenhar em 2004 ainda no Amapá. Ia junto com o coletivo para os bares da cidade, oferecendo-se para desenhar rostos na hora. “Éramos camelôs”´, conta ela, que seria
reprovada no curso de arte porque só queria fazer retratos. Mas o saldo desse período é extremamente positivo, embora em sua opinião os professores façam com os traços dos alunos fiquem sempre parecidos.
“Quando eu peguei meus antigos desenhos, eu vi que eu realmente hoje eu desenho melhor”, diz ela, que hoje trabalha com Action Painting e Instalação, Performance e intervenção, que são artes conceituais
surgidas no Brasil nos anos setenta e não sumiram até hoje.

Sabe-se que é quase surreal viver de arte no Brasil, onde tanto o reconhecimento quanto as oportunidades são mínimas. “Quando trabalhamos com arte, na verdade pagamos para trabalhar, não somos pagos. Eu gasto muito mais dinheiro comprando os materiais, mantendo um instrumento em bom estado ou comprando livros para escrever melhor do que ganho. A gente faz performance nas ruas e não é paga por isso.”

De 2006 a 2008, participou do grupo ‘Dimensões’, com o qual fez trabalhos aceitos em exposições em São Paulo e em outros estados. Seu último trabalho no ‘Dimensões’ foi s intervenção ‘Transparências’, exposta na galeria do Sesc do Amapá no final do ano de 2007. “Fechamos o espaço com fios de náilon e silicone transpassados do chão ao teto, impedindo a passagem das pessoas”, conta Tassia Leal. Para aumentar
ainda mais a dificuldade do público, foram espalhados registros fotográficos bem comuns no rodapé. Os textos ficavam em cima e eram explorados também trechos de vídeos e de intervenções feitas anteriormente.

Essa ideia de expor de forma a dificultar a locomoção do público foi um desdobramento de um outro trabalho apresentado no mesmo ano: ‘O filho indisciplinado do pós-moderno’, baseado em uma obra de Marcel Duchamp em que ele monta dentro de um cubo branco em Paris uma sala de estar burguesa, fechando o ambiente com fios de lã de modo a impedir a passagem das pessoas. “As pessoas destruíram a metade da intervenção que fizemos com os fios porque elas queriam passar”, conta a artista plástica, cujo objetivo com aquele trabalho era resgatar o ambiente dentro de um evento que acontecia no Sesc chamado ‘Overdoze’, uma referência às suas doze horas de duração.

Além das galerias
As intervenções do grupo ‘Dimensões’ não ficaram restritas às galerias. “Uma vez que a gente parou a festa inteira ao levar as pessoas para dentro na marra, fechando o espaço com aquilo tudo”, conta Tassia Leal, para lembrar em seguida que depois de meia hora os convidados conseguiram se libertar. Quando o grupo ‘Dimensão’ se desfez, Tassia criou o Mata (Mapige e Tassia), que fundiam as artes visuais com o cinema e textos científicos destinados a comprovar que as realizações das duas meninas são artísticas e não vandalismo. A afinidade da dupla resistiu à mudança de Tassia para o Rio de Janeiro.

Quando chegou ao Rio de Janeiro, Tassia Leal criou, com os atores Wellington Dias e Anderson Barroso, o ‘Culetivo Tecnokanibal’, uma experiência que mistura artes visuais e artes plásticas, criando um teatro de variedade que aplica os conceitos da revolução artística da década de 1980 à estética da década de 1970.


Apaixonada por literatura e música, a moça tem três blogs, cada um dedicado a uma modalidade artística. Na sua antiga cidade, uma das suas atividades era se juntar aos seus amigos para tocar e cantar aleatoriamente. “Desde que eu me entendo por gente, eu me envolvo com desenho, pintura, literatura. E desde quando eu aprendi a segurar um lápis eu nunca mais quis deixar de lado isso que aprendi,” revela com
um sorriso simpático no rosto.

Blogs da artista:
Selva Sonora: selvasonora.wordpress.com
Pelo Rallo: pelorallo.wordpress.com
Culetivo TecnoKanibal: culetivotecnokanibal.wordpress.com

8 Comentários:

Rosa Cristina disse...

Ahhh, que história bacana Yayá *-*
ADOREI!

Talise disse...

Despertou a minha curiosodade em ler até o final. Parabéns.

falanacara disse...

Parabéns, uma história muito surpreendente. Me prendeu até a última palavra também.

Peter MC disse...

Eu queria desistir de ler esse texto grande, porém o assunto foi muito interessante!

moloch! disse...

HEY, EU SACO ESSA GATA AÍ BABY'S!

:o)

fábioObranco disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
wellington dias disse...

Bastante intrigante o título da matéria... Muito bem escrita e de uma fluidez tão rara nos atuais meios de comunicação via escrita que circulam por ai...
Realmente a Tássia é daquelas pessoas que dão o que falar por onde passam...
Sorte grande e muito gás para as andanças dessa jovem e promissora artista de múltiplas faces e estados de ânimo!!!

Amo essa figura!!

Marcelle Abreu disse...

Parabéns, Yasmin!
a matéria ficou maravilhosa. Comecei a ler e não consegui parar...

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