O Maracanã do Funk

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

por Bruno Firme

Com dois anos de existência, o Clube do Rocha já é um dos maiores points da noite iguaçuana. Atrai jovens de todas as classes e até pessoas de outros municípios. "Fiquei sabendo desse espaço na net e resolvi conhecer, pois queria encontrar um lugar mais barato para curtir a night”, conta o estudante Thiago Santana, que no último sábado saiu de Niterói com cinco amigos em seu fusca verde para curtir uma noite sensivelmente mais barata. “Lá onde eu moro uma cerveja em lata custa R$ 5,00.” No Clube do Rocha, conhecido como o Maracanã do Funk, a cerveja custa R$ 0,50.



O preço é de fato uma das grandes atrações para as multidões que correm para o Corumbá nas noites de sábado, capaz de modificar o ponto final das kombis que saem do centro para o baile comandado pelo militar reformado Oswaldo Pereira Rocha, mais conhecido como Seu Rocha. “Mudamos da Rua Dom Walmor para a João Venâncio Figueiredo, na Posse”, conta o motorista Paulo Evangelista da Silva, 65 anos. “Tivemos que nos adaptar para receber as pessoas que curtem o baile do Rocha”, explica ele, que desde então nunca mais conduziu sua kombi ao longo da madrugada para apenas uma pessoa.

Com sua voz rouca e firme, o empresário de 67 anos explica com poucas palavras o sucesso do seu empreendimento. “É clima de família”, conta ele. "Aqui não rolam drogas,violência e nada de pessoas armadas.” Tudo começou há cerca de 12 anos, quando, para aumentar o movimento de sua padaria, Seu Rocha resolveu organizar pagodes na Avenida Fuscão. “Mas os frequentadores pediram tanto para eu colocar funk, que eu tive que ceder.” De uma hora para outra, cerca de 7 mil pessoas se apertavam em frente ao seu estabelecimento comercial. Não dava nem para o ônibus passar na rua. “Para dar mais conforto à comunidade, resolvi construir um clube”, conta ele, que, como um bom nativo de Cardoso Moreira, no interior do Rio, gosta mesmo é de música sertaneja.

As 192 caixas de som da equipe Caldeirão do Rocha, controlada por apenas um DJ, cria uma barreira de 800 decibeis que só não inferniza a vida da comunidade por causa do tratamento acústico das paredes do clube, que já recebeu 90% dos cantores de funk e ícones do samba, como Gustava Lins e Neguinho da Beija-flor. Outra preocupação que atrai os carros e motos para a Estrada de Santa Rita, que na verdade é uma rua de terra batida em Corumbá, está no modo como o teto foi construído, dando vazão ao ar e dispensando a necessidade de refrigeração. As pessoas conversam na parte aberta do telhado.

A segurança é constante. Todos os frequentadores, sejam homens ou mulheres, só entram no clube depois de serem revistados por três seguranças. Outra grande atração do baile é a cerveja, vendida a R$ 0,50. Há, porém, um detalhe. “Só leva a cerveja quem pagar com moeda de R$ 0,50”, diz a simpática vendedora, que também não aceita moedas menores, mesmo que o cliente tente pagar com moedas de R$ 0,10 ou R$ 0,25. A promoção da cerveja dura até acabar o estoque de 2 mil latas.

O público também é família, como se pode depreender pelo depoimento da camelô Rafaela Dias, 21 anos, que arrancou suspiros dos garotos com seu vestido rosa e o arquinho na cabeça. "Dizem que mulher de baile é mulher de baile. Mas sou uma garota que me valorizo e não dou mole para qualquer garoto aqui. Sou a mulher de baile para casar", diz ela, que frequenta a Igreja Assémbleia de Deus de Santa Rita.

O baile termina às 5h da manhã, com pessoas fazendo fila indiana para sair. O pedreiro Alcyr Vianna, 36 anos, já se prepara para pegar no batente. Passando litros de desodorante no corpo e colocando o macacão da empresa para trabalhar num dos 40 banheiros do Clube (9 banheiros femininos,11banheiros masculinos e 20 mictórios), diz que agora vai à luta.
"No sábado, eu não durmo. Fico aqui até a noite acabar e depois vou direto trabalhar. Nem vi a minha mulher ainda, que pensa que estou fazendo serão. Só volto domingo à noite", diz um atrapalhado rapaz que acaba percebendo que o telefone tocou. Vê que a esposa ligou 5 vezes.

3 Comentários:

Déh disse...

Caramba, que matéria legal! Talentoso, o novato!
Boa sorte!!

Yasmin Thayná disse...

Nossa! Fiquei espantada com a qualidade do texto e o jeito de escrever os detalhes como esse final. Muito da hora. Tem um talento brilhante. Bem vindo. Você é um jornalista.

Marcus Vinicius disse...

Novato, mas com escrita de experiente, sabe prender a atenção do leitor. Parabéns pela matéria.

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