A moda do coveiro

terça-feira, 12 de abril de 2011

por Yasmin Thayná



Morador de Mesquita, colunista de moda, professor, 20 anos, ex jovem-repórter, Robert Tavares, conhecido como Mexicana Bêbada no mundo dos tuiteiros, é um personagem que transforma o caos da sua vida real em humor nas redes sociais.

Aos 15 anos, Robert e a família, formada por mãe, pai e um irmão, encararam uma mudança de localidade quase traumática para ele: morar na Baixada Fluminense depois da morte do avô, que deixou a esposa sozinha numa casa de grande dimensão. "Minha avó ligava para minha mãe todo dia para pedir pra irmos pra lá", lembra ele.



A relação de Robert com seus pais é boa. Seu grande sonho de menino era que seus pais fossem separados para que ele tivesse dois presentes e duas casas. "Eu e meu pai nos falamos pouco. Quando acordo, ele já saiu e quando eu chego, ele tá dormindo. Mas a nossa relação é boa. Meus pais não me julgam por nada. Eles são super ok. A gente aprendeu a viver com a diferença do outro e vimos que até dentro de casa ninguém é igual."

Com a mudança radical, teve que mudar de escola. Por conhecer a diretora do Instituto de Educação Rangel Pestana, Robert e seu irmão se matricularam no curso normal no ano de 2005. "Demorei pra me adaptar. Mas eu sei que devo um pouco ao normal pelo que eu sei, e pelo que eu falo. Lá eu aprendi o que era Freud e várias outras pessoas me fizeram ter a cabeça que tenho hoje. Mesmo que seja ruim," brinca.

Ele, que era um menino tímido, fez algumas amizades na escola. Dentre elas, ele destaca a Carine, @sourainha , e a Josy Antunes, @baratasvoadoras. "Eu cheguei ao culturaNI pela Josy. Estudamos juntos e aí levou a Carine e me levou também. Foi uma fase muito importante pro meu desenvolvimento intelectual. Aprendi e ganhei muita coisa como jovem repórter", frisa.

Chantagista
Parte dessa amizade está registrada, com muito bom humor, no Youtube: @sourainha, @baratasvoadoras e @mexicanabebada fazem altas interpretações a partir de músicas, culinária exótica e uma cineasta amadora, que hoje passou a ser profissional. "A Josy, @baratasvoadoras, era muito chantagista. Tudo que a gente pedia a ela, sempre tinha que ter algo em troca. Se a gente não fizesse o que ela queria, ela se vingava. Ela subornava a gente. Daí ela queria que fizéssemos os vídeos e nós, eu e a Carine, @sourainha, pagamos aqueles micos," lembra.

Seu interesse pela moda vem desde a infância, quando resolveu transformar o visual das bonecas de suas primas. "Eu sempre tive interesse em moda. Pegava a Barbie das minhas primas, botava roupas, mexia no cabelo." Na adolescência, deixou fluir e juntou o gosto pela escrita e a paixão pela leitura do mundo da moda. "Eu tinha um blog que eu escrevia sobre a minha vida e contava dos desenhos que fazia no tempo em que fiquei deprimido no meu quarto. Eu colocava os desenhos para escanear e mandava pro blog. Todo dia tinha uma coisinha nova no blog: um texto, um poema, um desenho.”

O MP3 com que foi premiado pela sua atuação no Jovem Repórter foi usado para gravar o canto dos pássaros que passou a postar no blog. “Sempre postava os sons do meu dia", conta ele. Mas ele era inquieto demais para se limitar ao registro da própria vida e ele começou a postar também textos sobre moda, que ele escrevia do seu jeito depois de ler uma matéria qualquer sobre seu tema preferido. "O blog começou a ser mais lido e resolvi sair para as ruas, para pegar exemplos da vida real."

Em 2009, ele passou por um período que qualquer jovem passa pelo menos uma vez na vida. Não chegou a ser uma depressão profunda, mas uma amargura resultante do emaranhado de pressões que a sociedade empurra num determinado ponto da vida do adolescente. "Tive uma crise e fiquei dentro do meu quarto um bom tempo. Eu ficava pensando sobre muitas coisas, desenhava, escrevia, ficava pintando. E disso, eu percebi que preciso de um caos pra viver e depois de um tempo pra organizar o caos. Minha vida é bem isso mesmo", conta.

O blog o credenciou a participar do Fashion Rio, o evento mais importante da moda brasileira, onde ele chegou sem conhecer ninguém."O que eu sabia era de coisas que lia na internet de marcas e estilistas. A Josy me emprestou que ela tinha acabado de comprar, peguei o MP3 que ganhei no Jovem Repórter e fui lá.” As inúmeras entrevistas e contatos com o mundo fashion que fez resultaram num emprego num dos principais blogs de moda do país.
Lição para a vida
A cobertura do São Paulo Fashion Week se tornou inevitável. "Fiquei uma semana lá.” O deslumbre com os estilistas mais importantes do país foi acompanhado de um ritmo de trabalho avassalador, que, além das concorridas entrevistas com as grandes estrelas do evento, descobrir o conceito por trás de cada desfile. "Se alguém fosse desfilar com um brinco novo, íamos lá descobrir qual é o brinco, o que ela quer passar usando o brinco e de onde é o brinco.” O competitivo mundo da moda também deixou “lições para a vida”. “A gente não tem que confiar muito nas pessoas porque elas são muito desonestas. Sempre tem um que quer te dar rasteira. E você vai aprendendo a diferenciar isso ao longo da vida," comenta.

Após uma semana, ele, que já era um membro do site, viu que não era bem aquilo que queria para o resto da vida. “Quando a gente faz alguma coisa, a gente quer ser reconhecido e isso não estava acontecendo comigo”, conta ele, que, além de passar seis horas diárias dentro de um ônibus para ir e voltar para a redação, na sempre engarrafada Barra da Tijuca, não recebia os créditos pelo gigantesco trabalho que fazia. “Lá, eu escrevia sobre o figurino dos filmes, sobre unha, roupas, muita coisa. Eu me matava para entrevistar as pessoas pra chegar no final, não receber os créditos e ainda ganhar pouco? Não dá." Pediu demissão, abandonou o mundo dos blogueiros e fez um balanço da vida. "Quero estudar jornalismo e escrever numa coluna de revista feminina, ou ser tipo Tati Bernardi”, diz ele que um dia já achou o máximo ser coveiro e hoje sonha em ser rico.


O primeiro twitter do Mexicana foi o @roberttavares, que criou em 2008 por conta de um blog que escrevia junto com a @sourainha sobre a vida dos famosos. "O Twitter era sobre coisas do meu cotidiano, da minha vida. Num dos meus blogs pessoais, eu captava o som dos pássaros. No Twitter, eu escrevia sobre os sons." O nome Mexicana Bêbada é uma homenagem à atriz mexicana Penélope Cruz, que estava bêbada num filme que fez. “Foi mais ou menos por isso, não tem um motivo muito específico", diz ele, que no entanto manteve a sobriedade dos seus posts até pedir demissão.

O Twitter teve o mesmo tom pessoal de suas publicações anteriores, acrescido de uma veia cômica. "Eu tenho essa tendência em transformar o triste no engraçado, de tirar coisas engraçadas de cada situação.” A primeira dificuldade foi conter sua verborragia em 140 caracteres. Depois veio o objetivo de conquistar seguidores, estipulado inicialmente na modesta casa de 200 pessoas com quatro twitadas diárias, duas antes de sair para seu emprego, duas quando volta para casa. “Só retwito mensagens solidários, quando vejo alguém com filho perdido, por exemplo.” É mais comum ele colocar uma estrelinha quando gosta de algum post.

Frustrações verdadeiras
Quem segue o @mexicanabebada sabe que tem um pouco de ficção nas mensagens postadas. "Lógico que eu faço um pouco de ficção, mas algumas frustrações são minhas de verdade. Hoje em dia eu falo mais do que eu penso, sou mais eu. Antigamente eu inventava."

Na internet, há sempre a possibilidade de algum internauta perdido na rede puxar assunto e fazer uma amizade que vai significar bastante na vida por pura identificação, mesmo que entre as duas vidas nunca tenha outro contato senão o virtual. "No passado, tinha muitos amigos de internet, conhecia pessoas de outros estados e tal. Não dá pra contabilizar. Com o trabalho, parei de me apegar muito a pessoas de internet porque é complicado, sempre dá uma frustração no futuro. E é muito ruim se distanciar de pessoas que a gente gosta."

Os twiteiros com mais de 30 mil seguidores estão sempre postando as mensagens que leem nos blogs mais acessados. "Se 20 pessoas deram RT eu acho que só 20 leram, já é alguma coisa. Já não estou falando, sentindo ou pensando algo sozinho." Robert Tavares gostaria que o Twitter lhe desse coisas maiores, mas nada com tanta expectativa. “Tudo que fazemos, queremos alguma coisa. Todo mundo quer se dar bem na vida. Eu fico tuitando, mas não fico parado. Tenho meu trabalho também, então, se acontecer ok e se não acontecer ok também."

A internet é um meio de comunicação onde a eficiência e a rapidez das notícias só perdem para o rádio. Mas, mesmo perdendo, os jovens preferem o mouse e o monitor. "A internet me ajudou muito com informações e pessoas. Eu sempre tive esse negócio de conhecer pessoas de internet e falar pra elas. Meu namorado, por exemplo, ficava com uma amiga minha, que inclusive conheci por internet. Às vezes, a internet substitui papéis da vida real", filosofa ele que, apesar de ser um devoto do Twitter, confessa o que rola de ruim entre a galera. "Rola muito desafeto no Twitter, as pessoas se estranham. Ainda mais quem tem bastante seguidor e sempre está sendo retuitado. As pessoas sempre se ofendem."

Além de ser a alma de suas twitadas, o humor é indispensável em sua vida. "Eu sempre puxo tudo pro humor pra não ficar muito abalado emocionalmente. O Twitter é uma terapia. No Facebook, eu compartilho mais links, coisas que eu não faço no Twitter.” Há um critério para isso. “No Facebook tem mais meus amigos. Se eles não me seguem no Twitter é porque não querem ler o que eu escrevo lá. Então eu não vou ficar dizendo no Facebook o que eu digo no Twitter."

Apesar de não ter acontecido nada tão grande na ferramenta para Robert, uma das coisas que conseguiu foi ingressar na MTV. "Comecei a escrever na MTV por causa do Twitter. O Will Farias me chamou pra escrever no Palavra Ácida, arrisquei a escrever no blog. Toda semana eu escrevia um texto sobre qualquer tema. Eu quero fazer jornalismo. Antigamente eu ia mais nos eventos daqui da Baixada, mas agora por causa do namoro eu vou mais pra Zona Sul."

Os mais de cinco mil seguidores do @mexicanabebada têm uma relação quase de idolatria com Robert Tavares, que no entanto ainda não se acostumou com a fama. "No carnaval eu estava no metrô e um grupinho de meninas gritou: ‘mexicana!’ Fiquei com vergonha e saí andando.” Também houve o dia em que um de seus seguidores registrou no próprio Twitter que o viu comendo no Shopping Leblon. “Nossa! Vi a mexicana comendo no Leblon...”, dizia o post. “É muito surreal isso", diz ele, que, apesar do sucesso, continua tendo espinha e sentando no chão.

7 Comentários:

Marcão Baixada disse...

Adorei a matéria. Gosto das coisas que o Robert escreve, e sem contar que mora na minha área. Parabéns aos dois, ao Robert e a Yasmin...

Cix disse...

Adoro o Robert e, claro, adorei a matéria! É ótimo poder saber mais sobre a vida de quem a gente segue no twitter. Os 140 caracteres nem sempre (ou quase nunca rs) são suficientes.
Parabéns pelo trabalho, Yasmin!

Camila Senna disse...

Super bacana sua matéria. Prazer em conhecer o Robert Tavares.
Sucesso menina!

Shalom.

Hosana Souza disse...

Dois Lindos. Sem mais.

Dannis Heringer disse...

ROBERT, SOU SUA FÃ! AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! HAHAHAHA, além de ser meu vizinho é o meu melhor amigo! :D

Não vou elogiar a Yaya não, pq não gosto dela! hahahahha, mentira, estava na entrevista e o robert é um personagem incrivel! Parabéns Yaya!

Josy Antunes disse...

Que maldade comigo, Rorô!

Ivone Landim disse...

Aos dois um grande SALVE, aprendi sobre a internet com suas dicas.Espero que seus sonhos se realiza de forma tão poderasa quanto os cantos dos passaros que vc juntava.Quem guarda cantos só pode ser muito especial.Parabens minha menina e que bom que vcs existam.E que tal um projeto sobre a moda de rua? Grande bj.

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