O desafio do chuveiro

terça-feira, 5 de abril de 2011

por Joaquim Tavares

Era uma vez um menino, que já se dizia homem crescido, chamado Fernando, mais conhecido como Fernandinho. Ele era um rapaz muito maduro e independente, pelo menos ele achava isso. Gostava de fazer tudo por conta própria e era dono de sua própria vida, assim pensava.

Nosso garoto estava se dando muitíssimo bem na vida: cursava uma boa faculdade, que, além de pública, lhe dava uma bolsa. Paralelamente ao sucesso acadêmico, Fernandinho dava seus primeiros passos profissionais. “O emprego não era nenhuma Brastemp, mas dava para o gasto”, conta Fernando Fonseca.

A sua família era muito orgulhosa de tudo que ele fazia e o estimulava sempre a crescer ainda mais, sobretudo seu pai e sua mãe. Davam todo o apoio de que ele precisava, mas eventuais brigas e discussões eram inevitáveis. Fernandinho era teimoso ao extremo e dificilmente dava o braço a torcer quando errava. Lutava por sua ‘liberdade’ e queria que seus pais não enchesse tanto seu saco! “Eu me sentia uma criança quando eles me pediam satisfação da hora que ia voltar, com quem ia sair”, desabafa.


Foi ai que ele teve a mais brilhante das ideias de toda a sua vida: ele já estava com a vida encaminhada, em suas palavras, e era mais do que óbvio o que ele deveria fazer. Perguntou a si mesmo: ‘Por que eu não pensei nisso antes?’. Estava decidido: Fernandinho ia morar sozinho!

De repente
Tratou logo de avisar os pais, sem nenhum rodeio. Esses receberam a notícia e ficaram em estado de choque: ‘Por que assim, de repente?, Você tem certeza?’. Mas o moleque estava decidido, era isso e ponto final. Sem espaço para debate. Restou aos pais tentarem ajudar de alguma forma, mas foram surpreendidos, ele iria fazer tudo sozinho, do jeito dele.

Tratou rápido de contar a novidade aos amigos, que o idolatraram e queriam ser como ele. Imagina só, ter uma casa só para si... Seria o máximo! Não ouviria conversa fiada de ninguém, faria o que bem entendesse, com quem bem entendesse, na hora que bem entendesse. Era perfeito, mas as coisas nem sempre acontecem como a gente espera e Fernandinho teve certeza disso logo de cara.

No lugar de sua própria casa, sonhada originalmente, ele teria que se contentar com um apartamentozinho bem ‘inho’ alugado. Era o que dava para pagar com o seu salário, tão pequeno quanto o apartamento. Ele não podia gastar demais com o aluguel porque ainda tinha a alimentação e os gastos com passagem. Já que era só assim que dava, foi assim que deu. Fechou contrato por seis meses.
Pronto! Estava pronto para começar a sua vida independente. Tinha o lugar só para ele, poderia fazer de tudo. Logo, pensou em levar suas possíveis namoradas para lá. Animou-se demais. Seus pensamentos exigiram muito e ele ficou cansado e com fome. Mas, abrindo a geladeira, percebeu que não tinha se ‘abastecido’. Pois é, tinha que ir ao supermercado, mesmo estando supercansado. Foi e aprendeu a lição.

A rotina de acordar cedo já lhe era bem familiar. “Mas não estava acostumado a acordar ainda mais cedo para passar a roupa que ia usar, e isso se estivesse limpa”. Lembrou-se que, em breve, teria que lavar a roupa. Que saco! Foi para a faculdade todo amarrotado mesmo (e depois, ainda tinha o serviço). Aprendeu outra lição.

Chiqueiro
Por algum tempo, tudo andou bem, na medida do possível. Mas, passadas algumas semanas, a casa estava um chiqueiro. “Não tinha nenhuma experiência prática nessa área, mas tinha que por a mão na massa”, lembrou-se ele, com saudade da mãe.

Aquilo tudo estava deixando-o tão aborrecido quanto as interferências dos pais em sua vida. Como se não bastassem a faculdade e o trabalho, ainda tinha que cuidar das atividades do lar. A coisa tava arrochando! Ele percebeu, mas tocou em frente. Fernandinho sempre foi um cara safo.

No meio desse cenário dramático, Fernandinho tem uma ‘grande pequena’ surpresa desagradável que iria fazer repensar sua independência: o chuveiro queimou. E agora? Como era mesmo que o pai dele fazia para consertar? Não teve jeito. “Levei o chuveiro inteiro até uma loja especializada para que pudessem resolver o problema”. Já que ele próprio não sabia fazê-lo, o serviço dobrou de preço. Fernandinho estava possesso porque o mês tinha se tornado maior que seu salário; não sabia cozinhar e gastava muito mais com despesas de alimentação, comprava tudo congelado. Decidiu que banho gelado não era um mau negócio.

Fernandinho sentiu o fardo que era carregar toda essa responsabilidade nas costas. Sentiu-se ‘menos’ homem do que se imaginava ser. Viu que a vida dos pais não era nada fácil e repensou suas teorias sobre tudo aquilo. Fernandinho deu o braço a torcer pela primeira vez na vida e assumiu que foi precipitado. Ligou para a casa dos pais: “Mãe, queria muito conversar com você e com meu pai... Ah, é sobre uma parada aí... Nada de mais... Tô com saudade!”. Os seis meses se tornaram dois e meio; ele estava voltando para a casa dos pais, sua casa de verdade. Não queria mais aprender lições dessa maneira.

Pés pelas mãos
Fernandinho é o retrato do jovem que muitas vezes mete os pés pelas mãos e se precipita em suas escolhas, geralmente influenciado por fatores pequenos, de pouco valor que são encarados como o fim do mundo, a última gota.

A saída de casa é um marco na vida de qualquer um, por isso mesmo deve ser tratado com todo o cuidado do mundo. Precisa-se de base e suporte para que uma mudança tão drástica como essa aconteça. Desafios se multiplicam na vida de quem mora sozinho e é preciso se preparar para as dificuldades que sempre serão maior do que o esperado.

Nosso personagem foi um caso extremo e infeliz de como tudo pode acontecer. É claro que muitos são aqueles que conseguem êxito na sua partida rumo à vida sozinho. No caso desses, muito foi trabalhado (o segredo de tudo pode estar na base familiar) para que se chegasse ao ponto de uma certeza na sua escolha. Todos os riscos foram assumidos e calculados. Esses estão muito mais preparados e, logicamente, têm muito mais chances de fazer dar certo.

Em cada esquina existem vários ‘Fernandinhos’ (que poderiam muito bem ser ‘Fernandinhas’) prontos para cometerem esse erro. Sendo assim, vale um aviso, qualquer semelhança com o drama aqui narrado NÃO é mera coincidência.

Só uma última coisa, você sabe consertar um chuveiro?

2 Comentários:

Pessanha. disse...

Pensava em sair de casa. Mas, mudei de idéia! Afinal, EU NÃO SEI NEM COZINHAR, QUANTO MAIS CONSERTAR O CHUVEIRO!
Parabéns Joaquim!

Hosana Souza disse...

Muito bom Joaquim. Já estava com saudades dos seus textos!

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