Bixos escrotos

quinta-feira, 5 de maio de 2011

por Raize Souza


Bixoooo! Não se assuste, nem estranhe, caso escute alguém chamando um calouro das universidades públicas do Rio de Janeiro pelo apelido bixo. Na UFRRJ, esse apelido tem uma dimensão maior, pois, além do tradicional bixo, há a “hierarquia dos bixos”.

No primeiro período, os calouros são chamados de bixos, bixetes ou bixões. No segundo período, eles ganham o status de bixo | e, no terceiro, de bixo ||. Só a partir do quarto período que os bixos se tornam veteranos na maioria dos cursos. A exceção fica por conta daqueles cursos mais longos, como o de medicina, que tem seis anos.


A estudante de história Joice Serafim, que já goza do status de veterana, não acredita em discriminação ou mesmo bullying neste tipo de tratamento. Uma das razões para ela suavizar esse tipo de tratamento está no "x" da questão. “Bixo não é associado a animal, mas a gente nova. Por isso que usamos bixo com ’x’ ao invés de 'ch'."

Há os bixos que se incomodam com o tratamento, principalmente quando dão o azar o de derrubar a bandeja no Restaurante Universitário e ouvir todos batendo os talheres na mesa e gritando: "bixoooo!" Bixo em jornalismo, Munick Rufino se lembra do esforço para entrar em uma universidade pública sempre que sua condição de caloura é lembrada pelos colegas. ”Tenho orgulho de ser bixo, tem tanta gente que queria ser bixo também. Prova que passei no vestibular”.

A mesma Munick já não tem tanta paciência com o tratamento dispensado aos bixos nos alojamentos, onde são comuns cenas como as que aconteceram com o bixo de ciências sociais Bruno Henrique que já teve seu armário trancado, além de ser acordado com um balde dágua. "Além da integridade física, esse tipo de tratamento atrapalha na sala de aula", queixa-se o bixo, que uma vez teve seu colchão escondido e não pôde dormir direito. "Se estou sem colchão não durmo, se não durmo, fico cansado e ainda penso: 'qual será o trote que eles vão me dar quando voltar?'”, desabafa Bruno, que não protesta pelo fato de não ser do Rio de Janeiro e depender do aposento.

Alguns bixos denunciaram essa versão light de bullying, mas depois se arrependeram, já que a burocracia da universidade não tomou providência e eles continuaram a conviver com os veteranos no quarto. Um dos bixos que denunciou trotes como obrigá-lo a arrumar o quarto e lavar a louça, inclusive a que ele não sujou. ”Saí do alojamento porque não aguentava mais”.

Um veterano de engenharia de agrimensura e cartográfica que pediu para não ser identificado acha natural a pressão para que os bixos cortem o cabelo nos primeiros seis de vida acadêmica. ”Por que ele não vai perder? Não é melhor que ninguém. Se não quiser cortar, vai ser tratado de modo diferente”, diz ele, para explicar em seguida que o periódico corte do cabelo facilita a identificação do bixo novo pelos corredores do alojamento.

Diferenças de tratamento entre bixos e veteranos também acontecem no alojamento feminino. Segundo Joice Serafim, que está alojada desde o segundo semestre de 2009, os bixos são obrigados a fazer faxina obrigatória, além de pagar produtos de limpeza até o quarto período. Ela diz também que a pressão, no nível do insuportável no primeiro período, vai diminuindo com o decorrer do tempo.

Existe uma faixa na frente do prédio principal da UFRRJ que diz: “Calouro, você não é inferior a ninguém. O trote é ilegal e proibido: Denuncie!!!“. Mas a própria universidade não auxilia os alunos que precisam dessa ajuda. A faixa também deveria inspirar os alunos que sabem o que acontece, mas continuam omissos.

7 Comentários:

Anônimo disse...

O grande problema é que quando o trote ou, enfim, o tratamento dos calouros aparece em qualquer meio de comunicação, ele tem os exemplos mais radicais. Mas pra falar de Nova Iguaçu isso é combatido. Vai entender.
Matheus

Elaine disse...

É terrível saber que em algumas universidades brasileiras ainda existem esse tipo de atitude contra alunos novatos (calouros), que nesse caso é chamado de bixo. O mais terrível ainda, é saber que alguns desses alunos, conseguem de orgulhar dessa condição humilhante e constrangedora.

Anônimo disse...

Realmente existem trotes e trotes. Não vejo mal algum em ser pintado, mas quando é para brincadeira mesmo. Agora, quando o verdadeiro sentido é a humilhação, a coisa fica diferente...

Victor disse...

Outro problema é que ninguém quer ser rotulado de chato, ainda mais quando é novo em alguma coisa. Acabam aceitando pra poder se enturmar, infelizmente.
Se a faculdade não se manifesta, deveria haver alguma movimentação a partir dos estudantes, principalmente dos veteranos que não concordam com tais praticas.

fabio disse...

Esse tipo de trote não tem razão de existir. Por trás de uma "brincadeira" existe mesmo é muita MAUdade.

Anônimo disse...

Felizmente não tenho do que reclamar no que se refere a trote no IFCS. Fiquei super assustada antes de começar as aulas, só pensando naquelas reportagens em que sempre aparece um calouro afogado. Mas lá foram todos tão receptivos que ir pra rua pedir dinheiro foi a parte mais chata, eles são tão amigáveis que todo semestre promovem uma festa para integrar os calouros com os veteranos. A nossa é sexta(13) e todos estão convidados!

Poema Eurístenes.

je_cms disse...

Na moral? acho isso falta do que fazer, porque para mim, um trote vale apenas na primeira semana da faculdade, isso com trotes legais, pintar, cortar o cabelo e tal, chamar de bixo acho legal também durante os primeiros períodos, mas acho um absurdo obrigarem um calouro a pagar as coisas, fazerem faxinas obrigatórias, helloooo a escravidão já acabou faz tempo, e pooo deixar uma bandeja cair já é vergonhoso, e gritar de bixoooo batendo garfo? meeeeeeeeu quem faz isso é mais vergonhoso ainda, tinham que ser chamados de animais e não de bixos ¬¬

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