A ponta do iceberg

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

por Marcelle Abreu


Amanhã, às 18h, será realizado o IX Prêmio Baixada. Você ainda não sabe do que se trata? Não se preocupe, eu explico pra você.

O prêmio Baixada foi criado pelo Fórum Cultural da Baixada Fluminense em 2000, durante um encontro chamado Quem é Quem no Cenário Cultural da Baixada Fluminense, idealizado pelo PIMBA (Programa Integrado de Pesquisas e Cooperação Técnica na Baixada Fluminense), um programa do campus da UERJ, onde o encontro foi realizado. Os responsáveis pelo encontro foram os professores Paulo Ramos, do próprio PIMBA, e o professor Gênesis Torres, do IPAHD (Instituto de Pesquisa e Análises Históricas e de Ciências Sociais da Baixada Fluminense).


O encontro reuniu cerca de 70 instituições e vários agentes culturais da Baixada, ao final do qual a Carta Cultural instituiu o dia 30 de abril como Dia da Baixada Fluminense. O prêmio é uma das culminâncias das comemorações do dia 30 de abril. E teve sua primeira edição no ano de 2002, na própria FEBF. A edição deste ano será em Paracambi, que está comemorando este ano seu Jubileu de Ouro. A escolha da cidade sede não tem nenhum outro critério senão o do primeiro prefeito que manifestar interesse.

Nos primeiros anos de prêmio, os participantes eram escolhidos por indicação de instituições ou eles próprios indicavam, mas depois os organizadores chegaram à conclusão de que era melhor deixar que as pessoas se inscrevessem. "Avaliamos os currículos, a representatividade da pessoa ou instituição na Baixada e fora dela", conta Claudina Oliveira, organizadora e produtora do evento, que, para facilitar o processo de seleção, também pede matérias de jornal e cartas de referência dos candidatos.

O prêmio tem 14 categorias, como artes cênicas, música, artesanato, comunicação, esporte e educação. Em geral, só se distribui um prêmio para cada categoria, mas na edição do ano passado, a prefeitura de Seropédica se sensibilizou com os 70 inscritos para a categoria música e concedeu três prêmios. "Os organizadores do estão pensando em fazer um seminário para discutir o evento, pois, só para dar um exemplo, há vários os estilos de música e fica difícil avaliar canto coral com MPB, ou com música sertaneja", diz a organizadora. A comissão é composta por 5 a 7 pessoas de especialistas capazes de avaliar a representatividade do candidato de cada área. E nem sempre a comissão é divulgada, para evitar pressões e represálias.

Caminhada de Claudina até o prêmio

Uma das convidadas para o encontro foi a produtora Claudina Oliveira, que, no entanto teve que declinar porque teria que se apresentar para a Fios da Roca, a companhia teatral para a qual trabalhava na ocasião. "Fiquei muito indecisa, mas não poderia deixar o grupo na mão", lembra ela, que terminou optando pela apresentação em Paty dos Alferes.

Claudina está nos palcos ate hoje. Atualmente com o espetáculo "De Iguassú Velha a Nova Iguaçu”, escrita pelo professor Ney Alberto e dirigida por Ribamar Ribeiro. A peça, que foi contemplada com pelo Fundo Municipal de Cultura Escritor Antônio Fraga, conta a história da cidade e se baseia em estudos feitos pelo professor. "Esse espetáculo está sendo levado para todas as escolas de Nova Iguaçu, pois achamos importante que nossas crianças e adolescentes saibam um pouco sobre o lugar onde moram."

A companhia está com este espetáculo desde 2000, mas na primeira versão ele se chamava "Iguassú Velha, Maxambomba e Nova Iguaçu", e o roteiro era do Mestre Azulão. "Mas ele teve alguns problemas na cidade e pediu para que parássemos de encenar a peça", lembra a produtora. Mesmo sem ser um cordelista, o professor Ney Alberto assumiu o desafio de transpor suas pesquisas históricas para a forma de repente.

Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar contando tudo isso. Bem, é simples. Continue lendo e vai descobrir que tudo tem uma ligação.

Claudina de Oliveira praticamente iniciou sua carreira como produtora na base do improviso, seguindo a única alternativa oferecida por uma cidade que obriga os interessados a procurar um outro lugar para estudar. "Aqui não temos uma escola de formação artística", lamenta. "Você tem que ir pra outra cidade”.

Ganhou seu primeiro certificado como produtora em 1999, enquanto fazia o pré-vestibular para negros e carentes. "Teve um seminário e eu ajudei a organizá-lo", lembra. Depois virou frequentadora assídua do SESC, que frequentava desde antes da construção da sede de Nova Iguaçu. “Quando o daqui foi inaugurado, vi que tinha curso de teatro, mas demorei a me inscrever e só fui chamada dois anos depois." A demora, no entanto, valeu a pena. “Éramos 88 pessoas e no meu tempo o SESC tinha ótimos professores. Tive uma excelente iniciação”.

Quando o grupo do SESC começou a ensaiar seu primeiro espetáculo, uma peça de Shakespeare com 17 atores no elenco, uma mudança política na instituição pôs um fim à experiência dos Guerreiros, primeiro nome que o hoje Fios de Roca, em homenagem ao professor Lino Rocca, teve. "Tivemos que arrumar um novo lugar para ensaiar."

Na mesma época, o Center Iguaçu estava inaugurando um projeto chamado Cinema vira Teatro e o administrador Marcos Ferreira os convidou para ocupar o inusitado horário das 22h. ”Muito determinados e envolvidos pela paixão, vendíamos os ingressos antecipadamente e com isso tivemos nos dois meses que ficamos em cartaz. Era o máximo, o máximo mesmo”, conta.

A descoberta
Claudina era uma pacata dona de casa e mãe de três filhos antes de começar o curso de teatro, que a ajudou a se descobrir como pessoa. “Quando comecei a fazer teatro, o menor tinha dois anos, e eu estava me sentindo enclausurada", conta ela, que sempre sonhara em correr mundo e se sentia mal restrita a mamadeiras e fraldas. Naquela época, a grande aventura de Claudina era ir de bicicleta para a cantina que tinha em Heliópolis.

Quem descobriu seu talento para o teatro foi uma senhora chamada Verônica, com quem ela conversou em uma distribuidora de bebidas no caminho de casa para o trabalho. "Ela me convidou para ver uma palesra no SESI de Duque de Caxias sobre o lado direito do cérebro", conta Claudina, que depois de quatro aulas grátis tomou a decisão que iria mudar sua vida.

Quando começou a fazer as aulas de teatro, reuniu coragem para abrir mão do papel de vítima das circunstâncias que sua repressora formação evangélica lhe atribuiu. “Eu chorava muito na hora dos exercícios, e levantava com a cara toda inchada", conta ela, cujo pranto era provocado ela descoberta de quem era. “Foi a descoberta mais incrível na minha vida”.

Ela sentiu o grande iceberg que era a vida. “A gente acha que sabe da vida quando na verdade a maior parte está por ser descoberta. O que achamos que sabemos é apenas a ponta dele, o resto está abaixo”, afirma.

Foi nesse momento que ela se deparou com um vazio, viu o quanto ela precisava mergulhar e ela chorava por ver tanta imensidão. “Foi meio que me sentir perdida, mas o teatro dava a alegria que eu precisava”.

O curso para despertar o lado direito do cérebro foi ministrado pelo professor Paulo Ramos, na galeria artefato, e no mesmo período, ela acabou trabalhando na galeria e se tornou produtora.

“Foi todo um processo, o Paulo Ramos ganhou uma galeria. É que quando eu fiz o curso, esse era realizado numa garagem, numa área nobre em Caxias, no bairro 25 de Agosto. Logo em seguida ele ganhou um espaço no Shopping Unigranrio e eu o ajudei nesse processo”, relembra.

Foi na galeria que Claudina conheceu Paulo Christiano Mainhard, presidente do Fórum Cultural da Baixada Fluminense. Ele que idealizou o quem é quem, e a convidou para ir ao evento que, infelizmente, ela não pode ir.

Claudina e o Prêmio
Em 2002 ela realizou o 1º evento em comemoração ao dia da Baixada (30 de abril), o Prêmio Baixada. Ela foi uma das primeiras a realizá-lo. Ela pegou o ritmo do Paulo Ramos, trabalhando na base do voluntarialismo. “Ele sempre chamava vários artistas de diferentes segmentos e eu resolvi fazer o mesmo aqui”. Mas a grife Claudina Oliveira começou a ganhar força ao fazer o curso Repórter Comunitário com Marcos Galvão, o editor da Baixada do jornal O Dia. “Depois que saí no O Dia, os outros jornais que circulam na Baixada fizeram matéria comigo. Foi aí que as pessoas começaram a saber quem era Claudina”.

15 Comentários:

Natássia disse...

tá td lindo aqui em Celle,
beijos e PARAAABENS!

Thaís Lima disse...

Você escreve muito Celle UIOSAUSIOUS, mas adorei também ! Parabééns lindona :)

Emanuele Caroline disse...

escreve muito, e escreve bem ! ótima publicitária *-*

@rayraduarte disse...

como sempre arrasando nas matérias *-*

Carlos Alberto (BETO) disse...

Saudade..
Tá muito legal isso aqui heim!
vou voltar.. beijos!

Agatha Lepage disse...

adoreei a matéria, da-lhe Claudinaaaa! rs

Thais disse...

Está arrasando em amiga
Escrevendo muito bem!
Bjoo

Oi, gostei muito de saber sobre esse prêmio cultural da Baixada fluminense. Certamente este lugar abriga uma pluralidade cultural imensa e se faz necessário um fórum de discussão para diferenciar as categorias a serem premiadas.
Parabéns pela matéria que não apenas divulga, mas esclarece e conta sua origem.
Deus te abençeo e conduza seus passos hoje e sempre

Maria Rita disse...

Marcelle, parabéns pela excelente matéria! Elaborada, consistente e leve. Que venham muitas outras tão boas como esta :)

Muito, muito, sucesso para você e equipe!
Beijos

Villarino disse...

Parabens pela matéria!
Eu nem sabiaa da existencia desse premio.hahaha
Obrigado por me deixar menos ignorante! rs
te amo

Show de bola Marcelle.

A matéria tá muito bacana, você escreve muito bem.

Um bjao

www.quasepublicitarios.wordpress.com
[o blog do aluno de publicidade]

Cíntia disse...

Ótima matéria amiga!!!

Barbara Garcia disse...

Celle, vc escreve mt bem.. e nao sao cosas "inuteis". Ta de parabéns!
Essa é minha garotaa.. *-*

Arícia disse...

Adorei prima !!

Anônimo disse...

boa materia

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