Um grito de liberdade

sábado, 28 de agosto de 2010

por Yasmin Thayná

Hoje, não sei definir experiência. Não sei se é o ADA, Suvinil, Suvinir, Lembrancinha, o Adeus, as facções, a delegacia de Nova Iguaçu ou aqueles olhares assustados dos passageiros do ônibus Flores rumo a Xerém diante da capa do livro “lembrancinha do adeus”. Só sei que me senti uma criminosa lendo o livro dentro do ônibus com um destino traçado para Jardim Primavera, Duque de Caxias. O dia começou quando despertei com a voz da professora me alertando na aula de química, já que a primeira coisa que fiz foi ler o livro. E o dia, de fato começou ali: regado de letras contando a história do primeiro assalto a banco do Rio de Janeiro.


Desde pequena, os assuntos do crime, das favelas, do tráfico, prostituição me interessavam. Quis morar um dia na Rocinha a fim de viver aquela realidade. Esse interesse começou quando passava na Globo o seriado “cidade dos homens”. Estudava de manhã cedo e às vezes não conseguia ficar acordada até o final. Para facilitar, meu pai comprava fitas em VHS, colocava no vídeo K-7 e ficava na sala até de madrugada gravando. Ele se revezava com minha avó. Tenho até hoje os episódios, sou completamente apaixonada pela história de Laranjinha e Acerola. Depois dessas duas figuras cariocas incríveis, veio o Fernando Meirelles pedindo licença com a transformação do Dadinho em Zé Pequeno, no "cidade de deus". Depois "carandiru", que foi o único filme sobre presídio que vi até então. Até gostei, mas não tinha nenhum interesse em fazer uma passagem pela cadeia, pois achava que a favela era bem mais realidade que a cadeia. Porque lá, no meu pensamento, haveria um monte de bandido com a expressão facial de que “eu aprendi a lição, não vou mais matar. Não vou mais roubar. Não vou mais fazer o mal”. E no final tudo voltaria a se repetir. Foi a partir disso que me interessei totalmente pelo cinema nacional que, apesar de não ter o mesmo vigor dos americanos, sempre foi a minha preferência porque, além da minha educação ter sido bastante patriota, aqueles assuntos me fascinaram. Sempre me envolvi muito nas atividades, mesmo que profissionais, realizadas.

Até então, outra vez, não acreditava na palavra liberdade. Essa palavra me remete a mentiras, governo, política, sociedade, crime. Sempre disse que a liberdade é uma utopia, que era mais uma palavra bonitinha que elite brasileira adotou para enganar o povo ou que o povo adotou para se autoenganar.

Os meus passos ficaram cada vez mais longos e ligeiros. Comecei a transpirar como nunca. Pensei em desistir da carceragem até que o relógio do tempo, o monstro imutável, não permitiu que a minha fraqueza prevalecesse. Pulei vários obstáculos pelas ruas da cidade por conta das duas horas já passadas do combinado encontro na carceragem.

Não pensei no que faria lá dentro. Fui mesmo pra ver o filme “400 contra 1” que não tinha entendido o verdadeiro sentido do nome. Havia, nesse momento, dois grandes fatores para minha desistência: eram dezoito e vinte e eu teria de entrar na delegacia sozinha.

Mas o segundo fator só impulsionou a minha persistência. Nunca disse que era a coragem em pessoa, sempre me achei ousada e repeti - por onde quer que fosse - a frase pensada por mim que diz “quem ousa vence.”

O primeiro portão fortificou a minha ousadia pois o segurança que estava atrás das grades amarelas, deu uma de “João sem braço” querendo me testar. Acabou que ele testou a minha percepção, dicção e a minha objetividade de querer entrar naquele lugar. Passei por muitos portões e ao olhar aquelas grades antigas, me lembrei do "carandiru". Não que a delegacia tenha esse porte, mas passei por celas e isso me lembrou o único filme que me interessou em relação à cadeia. Deixei minha bolsa próxima ao meu destino: o portão de entrada ao pátio onde se encontravam os detentos.

Quando ouvi o “trec, trec, trec” do último portão de abrindo, fiquei sem ar. Meu coração não acelerou, mas parece que fui a outro planeta e só meu corpo se movimentava. Até que acordei quando vi o Julio, o Vinicius, e a Nany. Sentei rapidamente no chão feito uma fruta madura quando despenca do alto de sua árvore. Para minha sorte, o “400 contra 1” acabara de começar. Olhei ao meu redor e vi redes, colchões, latas, garrafas, panelas e muitos homens. Comecei a prestar atenção no comportamento de dois personagens que estavam à frente fascinados pela tela. Depois fui passeando, discretamente, o meu olhar por todos aqueles rostos: pretos, brancos, ruivos, mulatos, amarelos. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a curiosidade de que todo mundo deve ter tido ao permanecer no mesmo ambiente que aqueles rapazes: o que será que esse cara fez pra estar aqui? Será que ele matou? Roubou?

E uma certeza imediata: não existe aparência não. Por um momento, pensei que alguns detentos eram funcionários, pois seus rostos não eram parecidos com aquele estereótipo que havia dentro da minha mente.

Senti-me totalmente em casa, não mais que o Julio literalmente deitado no meio de todos aqueles presos. Em momento algum fiquei com medo daqueles olhares fulminantes lançados sobre o meu por eu ser visita. Confesso que não prestei muito atenção no filme porque aquele lugar composto por todas aquelas 120 personalidades, cuja atenção era voltada para o filme, não me deixou parar de observar um minuto. Ouve risos e empolgação nas cenas mais fortes. Os meus alvos humanos, que estavam ao meu alcance de visão, se identificavam a todo o momento com os assuntos abordados na história do crime organizado através de gestos, expressões e comentários.

Após aproximadamente 35 minutos de filme rodado, as minhas reações físicas, químicas e psicológicas mudaram. Senti do meu pâncreas ao meu órgão de audição. Parecia uma aula de anatomia, porém dessa vez com uma pessoa viva: eu, Yasmin Thayná.

O que tocou meu êxtase psicológico foi o grito de liberdade. Quando foi dado o pause no filme, um funcionário anunciou a ordem de três liberdades. Desabei. Meu conceito de liberdade acabou no momento em que um deles foi à frente e disse, em voz muito alta: atenção!

Quando pronunciados os três nomes, parecia a manifestação dos jogadores da Seleção Brasileira de Futebol no camisa 10 quando ele, na copa de 70, assumiu o time diante da ameaça de ficar no reserva e ganhou a Taça Jules Rimet com garra.

O grito de liberdade arrepiou todos os pelos do meu corpo, elevando meu corpo para cima. É claro que não consegui mais ficar sentada diante de toda aquela organização do grito saudando com artigos, comandos, o parceiro livre. Agora sim pude ver o que a palavra liberdade significa naquela realidade. Significa vida, família, felicidade, mundo. Construir e ver de perto o antigo novo mundo. A construção de um cotidiano digno, acredito eu, a partir de toda aquela eternidade que deve ser passar 24 por 48 naquele lugar. É o preço que se paga!...

Eu não sabia muito bem o que era Comando Vermelho não. Eles disseram com tanta vontade “comando vermelho. RL” Mas sabia o que era ADA. Aliás, aprendi no mesmo lugar, na mesma lembrancinha contada para mim naquele ônibus e na sala de aula, o que era Comando Vermelho e Terceiro Comando.

Quando acabou o “400 contra 1,” entendi o porquê do nome: os policiais contra um bandido que comandava “procedê” dentro da organização.

Eles se interessaram pelo assunto e, apesar da crítica de montagem do filme, os homens compreenderam e talvez até captaram alguma mensagem, já que nenhuma história é contada em vão. “Eu to no crime desde 13 anos e sei bem o que é isso”, disse o TC, que era um dos mais participativos e interessados do grupo.

Houve outro grito de saudação de liberdade, mas ninguém saiu. Foi para preencher o espaço vazio quando um companheiro saiu e não foi dado o Adeus-bem vindo ao mundo.

Não houve substituição. Com certeza, foi o grito de liberdade mais alto que escutei e umas das mensagens mais elaboradas que já presenciei ao lado daqueles homens que jamais pensei que um dia sentaria ao lado.

2 Comentários:

Marina G [novo] disse...

Só mesmo você para descrever com tanta poesia um momento como esse. Os esteriotipos que nos rodam impedem que vejamos a essência de cada um. Fico feliz por você conseguir te esse olhar apurado. :)
Beijos!

Talise disse...

Nossa, amiga! Isso é emocionante, tem que ter muita coragem e sobriedade pra viver uma experiência dessas.
Beijos.

Postar um comentário

 
 
 
 
Direitos Reservados © Cultura NI