O peitinho do bixo

terça-feira, 3 de maio de 2011

por Jéssica de Oliveira

A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ter cursos noturnos há pouquíssimo tempo, desde 2010. Cursos de humanas, mais precisamente, dando um “ar urbano” ao campus cercado de estacas de madeira rústica e arames farpados, dona de um grande campo verde e vizinha de bois e vacas.

Durante o dia, desconheço o que acontece. Só sei discorrer o que rola quando o sol se põe e as luzes começam a se acender. Mas antes de falarmos sobre isso, vamos bandejar?



Restaurante Universitário. Não pra nós, alunos. Preferimos chamá-lo carinhosamente de Bandejão, como fazem estudantes de outras universidades que também o têm. Entretanto, não sei se essa é a única característica em comum entre todos os bandejões, mas talvez exista algo muito peculiar do Bandejão da Rural.

Bom, primeiro mostre sua Carteira de Identificação Estudantil ao senhor que fica num balcão logo visto ao entrar pela porta do restaurante e dê seus ticket à senhora que fica ao seu lado, próxima à roleta. O ticket é vendido em uma cartela com dez, onde cada um sai por R$1,45. Se você, assim como eu, preferir comprar tickets individuais, precisará recorrer a cambistas. Ok, exagerei. É só perguntar se alguém na fila tem algum ticket pra vender. Tem gente que vende pelo preço normal, mas já vi alguns cobrando até dois reais.

Antes de pegarmos nossas enormes bandejas de metal – ou de plástico, acompanhadas de pratos de louça branca, que são a minha preferência -, preciso te avisar uma coisa: evite deixar a bandeja cair no chão, caso não queira sofrer “bullying universitário”. “Quando alguém deixa cair uma bandeja, todo mundo que está comendo para e começa a gritar: ‘Bixooo’, batendo os talheres na bandeja. É muito bom, eu já fiz isso!”, me contou Lucas Gomes, futuro contador, quando fui bandejar pela primeira vez.

“Bixo” é como são chamados os calouros da Rural. E é assim mesmo que se escreve, com X. Lá, tudo o que acontece de errado é “culpa dos bixos”, mesmo que eles não tenham nada a ver com o pato. “Bixo tem que morrer”, brincam os veteranos. No bandejão, os bixos temerosos pela vergonha que é deixar algo cair, pegam a comida, colocam na mesa, depois pegam os talheres, levam até a mesa novamente e só depois pegam o suco, mas sempre tem um que dá mole.

Acabando de jantar, vamos fazer a digestão. Caminhemos até o prédio principal da Rural, que é o mais bonito do campus. Quem já o visitou, sabe que sua beleza faz com que a Rural de Seropédica seja mais que uma universidade, mas quase um ponto turístico e, assim como o bandejão, o P1, como o prédio é conhecido, também reserva suas curiosidades.

Sua construção clássica e imponente carrega como adorno dois chafarizes em forma de três cabeças de tigres, como se saíssem de um só corpo, um a cada lado da fachada do prédio. Reza a lenda que se uma aluna entrar virgem na Rural e sair do mesmo jeito, os tigres saem de seu posto e vão atrás dela para devorá-la. Como os tigres continuam ali há mais de cem anos...

Essa lenda certamente foi criada devido às “tentações ruralinas”. Passando pelo P1, podemos ver grandes faixas anunciando as próximas festas que agitam as quartas-feiras dos alunos que moram por lá. A Festa Hot, com direito a concurso da camiseta molhada e dançarinas profissionais, é um bom exemplo. “É por isso que os tigres continuam lá no P1. É impossível resistir às festas e à pegação”, brinca Flávio Almeida, estudante de hotelaria e frequentador das famosas festas da Rural.

18 horas. Vamos para aula. No caminho, escutamos o canto da cigarra e grilos saltando pela grama. Se for esperto, vai carregar na mochila um bom repelente de mosquitos, que vai te poupar enormes marcas na pele. Aproveite e admire o pôr do sol, visto por detrás das palmeiras ao lado de um enorme campo aberto.

Além do repelente, aconselho a carregar também uma lanterna caso falte luz, o que é bem comum. O que me lembra outro causo: quando há apagões durante as aulas, os alunos atônitos pedem aos berros o famoso - mas misterioso - “peitinho”. “As alunas não fazem na sala de aula, mas se faltar luz quando elas estiverem no alojamento, o peitinho é certo”, conta Carine Caitano, aluna de administração pública e ex-jovem repórter.

O “peitinho” consiste basicamente nas meninas levantarem as blusas e deixarem os seios à mostra. No alojamento, o peitinho tem toda uma logística, toda uma produção. Segundo a estudante de química industrial, Andreia Coutinho, funciona da seguinte forma: duas meninas colocam um tecido branco na janela com uma vela por trás. Daí, as outras meninas tiram a blusa e desfilam a sombra de seus seios, para a alegria dos rapazes que lotam a frente do quarto em questão.

É difícil conhecer alguma menina que assuma que faz o peitinho. “Por isso o pano branco, pra dar um ar de mistério”, completa Andreia. Carine ainda conta que o peitinho é uma espécie de rito de passagem entre as meninas do alojamento, mas assim como o trote, não é obrigatório.

Com certeza os alojamentos rondam o imaginário dos alunos e dos não-alunos. “Existe até um quarto-motel num alojamento feminino, com direito a segurança na porta e tudo”, conta Filipe Cruz, também estudante de administração pública.

Fim da aula. Para quem mora na Rural ou em bairros próximos, hora de festa, barzinho ou para os mais ousados, visita secretíssima à piscina olímpica da universidade. Preciso comentar o que rola por lá? Pra mim, hora de correr porque o “Nilópolis”, ônibus que pego, já vai passar.

4 Comentários:

Anônimo disse...

Olhar típico de uma bixete!!

kkkkkkkkkkk
Olhar típico de uma jornalista.

Dine Estela disse...

kkkkk...Quanto causo!!!!
Coisa de interiorrrr....

adorei o texto!

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