O rei de Vila Zenite

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

por Robert Tavares

Nem mesmo a chuva forte que caiu no último sábado desanimou os foliões que tanto esperavam para a festa de abertura da Folia de Reis em Vila Zenite. “A chuva deu um toque a mais”, conta Sílvia Arantes, uma das cozinheiras da festa que há mais de seis colocou esta microárea de Austin no mapa das Folias de Reis da Baixada Fluminense. “É São Pedro nos abençoando.”

Apesar da bênção do porteiro do céu, a comunidade comemorou quando a chuva deu um tempo, ali por volta das oito da noite. E pararam a comilança e o falatório para agradecer a Nossa Senhora Aparecida, a santa padroeira do Brasil, a quem haviam feito dois pedidos ao longo do dia. O outro, que só revelaram quando o dia amanheceu, foi “que tudo ocorresse bem, e que todos os rostos estampassem longos sorrisos”. Foi exatamente isso o que aconteceu.

Ao som dos instrumentos musicais, os foliões efetuam longas caminhadas levando a “bandeira”, um estandarte de madeira ornado com motivos religiosos, à qual tributam especial respeito. Vão liderados pelo mestre e contra-mestre, figuras de relevância dentro da Folia por conhecerem os preciosos versos, preservados de geração em geração. O grande mestre da Folia de Reis da Vila Zenite Athaíde de Souza, mais conhecido como Nego, um senhor de 48 anos que entrou no universo dessa cultura quando era um menino de 11 anos.

A folia conta a história do nascimento de Cristo, desde a anunciação do anjo, até a época do nascimento. A festa foi trazida ao Brasil pelos portugueses, que a comemoravam em sua terra mais como divertimento. No Brasil, ela adquiriu o espírito religioso que conserva até hoje, sendo desenvolvida com características próprias e transformando-se em manifestação folclórica de rara beleza.

Festa de agradecimento
Segundo José Augusto, um dos mais animados foliões da Vila Zenite, a Folia de Reis é dividida em duas partes. “A primeira é essa festa de agradecimento a Jesus e uma comemoração ao dia de reis”, conta o folião. A outra é o Giro, onde o grupo de foliões faz suas caminhadas à procura do presépio, levando as figuras de José, Maria e Jesus, estampadas numa bandeira de pano. A bandeira de pano representa o estandarte de cada rei. Durante o Giro, que acontece entre a noite de 24 de dezembro e o dia 20 de janeiro, os foliões também fazem suas louvações com músicas, rezas e danças, entoando ladainhas com muita demonstração de fé.

Participam de festas de agradecimento, como a do último sábado em Vila Zenite, folias de vários cantos do estado. “O grupo recebe folias de vários lugares, vai em direção a elas, as cumprimentam, celebram juntos”, conta José Augusto. A folia de Vila Zenite recebeu na última noite de sábado nada menos do que seis folias, todas elas da Baixada: “Estrela do Ambaí” veio de Miguel Couto; “Sete estrelas do Rosário” e “Sempre viva do Oriente”, de Mesquita; “Estrela Dalva”, de Miguel Pereira; e “Alegria do Oriente” e “Serafim”, dali de Austin mesmo. O anfitrião tem que oferecer janta para todas essas folias. A comunidade de Vila Zenite teve que desembolsar R$ 4 mil para receber todas aquelas folias.

Com 37 anos de experiência em Folia de Reis, Nego já sabe como proceder para que a Folia seja um sucesso. “Venerar, adorar o Salvador recém-nascido e anunciar o seu nascimento a todos os homens e mulheres de fé”, conta Nego, cuja primeira folia foi no Morro da Mineira, que ele ia escondido do pai. “Ele achava que era festa de gente sem vergonha”, lembra o mestre. Mas sua vontade era tão grande de participar da folia que havia nas redondezas, que bastava o pai dormir que ele fugia de casa. “Só voltava pela manhã, bem cedo, pra ele não perceber”.

Amor à bandeira
O clima era de muita animação e emoção quando o mestre e o restante do grupo começaram a “bater”. Folião desde os 4 anos de idade, Sebastião Dias do Nascimento não conseguiu conter as lágrimas. “Eu tenho amor por isso aqui”, conta ele. “Acompanho a bandeira porque amo, me faz sentir melhor”. A animação fica por conta dos palhaços, que representam os soldados de Herodes, que biblicamente são os perseguidores de Jesus, mas nesta festa estes são os grandes responsáveis por espalhar alegria. Com suas roupas de patchwork bem coloridas e trejeitos caricatos, eles só não ganham a simpatia das crianças que acompanham o cortejo. “Minha filha morre de medo deles”, conta Elisângela Serra, mãe de Thainá Serra, de 7 anos. “Ela sempre chora quando os vê”.

Mas nem tudo são flores no caminho do grupo. Uma das grandes tristezas para Nego, a falta de patrocínio para o evento, explica a razão para que esta festa popular esteja em processo de extinção na periferia das grandes cidades. “De uns dez anos pra cá, muitos grupos pararam de sair por falta de colaboração”, diz Rosângela Dias Correia de Souza, esposa de Nego, que não sabe até quando poderá manter essa tradição em Austin.

Seria uma pena que acabasse essa festa, uma das maiores tradições vivas da região. Tudo o que presenciei é maravilhoso e realmente leva alegria para a vida de cada presente.

2 Comentários:

Thiago disse...

gostei muito da reportagem
gostaria de dar os parabéns ao Robert e pedir a ele q me envie as fotos q ele conseguiu no dia da festa pro meu email
thimauro@gmail.com

Anônimo disse...

ola adorei esse comentario sou participante dessa folia eu brico de farda(palhaço)gostaria muito de poder ver as outras fotos se vc puder
por favor enviar as fotos pra mim eu agradeçeria des de já hum abraço adorei mesmo
thiagooliveiraperez@yahoo.com.br

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