O paradoxo do frio

quarta-feira, 18 de maio de 2011

por Fernando Fonseca

Imagem: internet

Rio de Janeiro. Nova Iguaçu. Meados do mês de maio. 2011. Essa observação não possui determinações geográficas específicas sobre o local citado acima. Simplesmente acontece, inevitavelmente, em todos os lugares dessa complexa cidade das Terras Baixas. O frio.

Com a poesia da música desenho meu lugar. Sim, eu moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. De certa forma, a beleza se perde, em partes, ao atravessar um túnel e a bênção de Deus só existe pros que crêem. A variação. A única coisa, porém, que parece não variar, é a certeza de que moramos em um país tropical. Sol, praia, sol carnaval, sol, calor, sol, festa, sol, Lapa, sol, cerveja, sol, chuva, sol. Rio quarenta graus, um paradigma difícil de ser quebrado. Mas, assim como fevereiro não dura para sempre, o verão uma hora também acaba. E com ele o sol.

Imagem: internet
Verão - outono - inverno - primavera - verão. O ciclo do tempo, o ciclo da moda. Algumas pessoas seguem as tendências, outras não. Por mais que seja difícil aceitarmos a ideia de que o inverno vai nos alcançar, ele alcança. Os dias claros, das peles douradas, se tornam cinza. Os braços abertos são trocados por abraços e o corpo revestido contra esse mal. É assim para todos, pelo menos na teoria. “Eu me recuso a usar roupas longas. Não sou mulçumana pra ficar tapando o meu corpo todo. Sou do Rio de Janeiro, meu bem! Como diz o ditado, o que é bonito é pra se mostrar!” diz Thalita Cristina, 23 anos, moradora do Bairro da Luz, vestindo um mini-short e uma blusa de alça em uma temperatura superagradável de 20°.

As ruas são o palco da exposição. Corpos malhados, rostos alegres. O cinza ainda não chegou para algumas pessoas. “Eu frequento academia 365 dias por ano. Quero o meu corpo lindo! Aí, só porque chega essa brisa geladinha que vocês chamam de inverno que eu vou me cobrir de roupa? Jamais! Quero mesmo é colocar o meu shortinho e ir pro mundo me acabar! Eu só uso calças jeans em festa de casamento, pra não chamar mais atenção que a noiva. Se não eu ia pra festa com meus vestidinhos curtos mesmo! Eles adooooram!”, completa Dayanne da Silva, 19 anos, estudante secundarista da Rede Estadual de Ensino, moradora do Bairro da Posse.

Um dia frio, um bom lugar pra ir ao baile. Muitos pensam, muitos fazem. “Eu vou com os meus amigos ‘tormar umas’, lá no centro de Morro Agudo, todo domingo. Lá é o mundo! Tem de tudo, nunca vi lugar assim! Faça chuva ou faça sol, faça calor ou faça frio, estaremos lá todo domingo. Quer ver uma coisa que elas ‘se amarram’? Se nós ficarmos sem camisa e com um rádio pendurado na cintura. É o poder!”, conta Douglas Cardoso, 25 anos, morador do bairro do Cacuia, sobre suas ações religiosas semanais de frequentar a famosa ‘Rua do Espetinho’ em Comendador Soares.


Imagem: internet
Sem estereótipos, compreendemos a grande abrangência dessa cultura, que não engloba apenas os apreciadores do funk. “Eu detesto funk, adoro um pagodinho, um samba de quintal. Sambar é comigo mesmo! As pessoas dizem que funkeiro não sente frio, mas eu não sou funkeira e também sinto a mesma coisa. Aonde é que já se viu que eu vou pra roda de samba de calça jeans? É a mesma coisa que ir pra praia de calças! Não dá! Não rola!”, exemplifica Brenda de Souza, 28 anos, moradora do Bairro Rosa dos Ventos, confirmando a teoria de que o calor não está presente apenas em um determinado grupo, mas na própria pessoa. “Eu sou funkeira e só uso calça jeans! Valoriza mais o meu corpo, as minhas pernas! Meu namorado diz que eu fico mais atraente de calça que de shortinho ou vestidinho. Eu me sinto melhor assim e nem por isso vou deixar de ser observada pelos rapazes. Claro, minhas calças são bem apertadas”, completa Stéphane Cruz, 15 anos, moradora do bairro Jardim Iguaçu. A diversidade que toma conta de todos os lugares daqui, como um cartão postal.

“Não sou careta. Não sou maluca. No frio sinto frio, no calor sinto calor. Equação simples! Tenho roupas pro verão e tenho roupas pro inverno, e o melhor de tudo, tenho senso em saber quando usar cada uma. Não julgo as pessoas que não fazem o mesmo, mas acho muito engraçado quando vejo algumas meninas vestirem seus vestidinhos curtos num frio de rachar e alguns meninos andando de moto, sem camisa, numa temperatura de 20°. É estranho, mas consigo conviver com isso, afinal de contas, o que seria do azul se todo mundo gostasse do amarelo?”, completa Juliana Albuquerque, 19 anos, estudante de administração da UFRRJ, moradora do Bairro de Santa Eugênia.

Igualdade que se difere, diferenças que se fundem. Partes de um contexto rico em demasia para ser subjugado. Um reflexo do que o Rio é. O Rio de Janeiro, fevereiro e março... Junho, julho e agosto. Aquilo que somos se revestindo em nossa pele, tanto por sinais, quanto por roupas. Paradigmas que se rompem em harmonia. Um paradoxo carioca.

18 Comentários:

Marcelle Abreu disse...

Que matéria maravilhosa essa, hein. Amei. E eu amo esse tempinho frio, as pessoas ficam tão mais bonitas e elegantes.

Marcele Moraze disse...

Curti baldes!
Especialmente o " Quer ver uma coisa que elas ‘se amarram’? Se nós ficarmos sem camisa e com um rádio pendurado na cintura. É o poder!"

Adis disse...

Realmente tem gente pra tudo por essas bandas da baixada fluminense! XD

Déh disse...

As pessoas ficam muito bonitas e elegantes... quando têm bom senso e vestem roupas de inverno!!!

Tatiane Fonseca disse...

Bom senso são pra poucos...Moramos em um estado que se cultua mais o corpo que o cérebro."E pra que roupa de frio, se eu malho o ano inteiro?"O que tem a ver uma coisa com a outra???E viva o Rio de Janeiro,terra do samba e do futebol.Terra de lindas mulheres de shortinhos.País da desigualdade,da falta de cultura,da intolerância,da bandidagem e "vamo que vamo,mermão!"

Clara disse...

Show de bola, retrata bem o RJ... Friozinho é sempre bom, porém nem todos sabem aproveitar da maneira que deveriam...

Adorei a matéria!! Muito boa mesmo!
Ultimamente tenho observado muito principalmente as meninas, a maneira como cada uma se veste no frio ou calor. Engraçado que pra algumas isso não faz a menor diferença! Pode estar o frio ou o calor que for estão sempre de roupas curtas, nem ligam se estão com frio ou não! Bom isso vai do gosto de cada pessoa!
Eu particularmente não sou assim. Procuro sempre me vestir da forma mais adequada possível, e claro que de acordo com o tempo! e respeitando também o ambiente onde eu estou!
Até porque vamos combinar que as pessoas ficam muito mais elegantes quando vestem roupa de inverno! = )

Lara *.* disse...

gostei!!!
eu adoooooro meus vestidins!!
sou sexy!!
bjo

Anônimo disse...

FRIO É PROS FRACOS!!

J>J

Anônimo disse...

bando de mulambooo!!


by Jorge.

Sarah C. disse...

é o mundo se acabando em frio.
é a vida se acabando em vergonha alheia!!

Olá, Fernando!

O Rio representa essa mistura de gostos.

Para o Carioca poderia ser sempre verão,né?


Grande abraço!

Kareen disse...

Concordo plenamente com a opinião da Juliana.Ter bom senso é algo mais que fundamental!

Ótima matéria!

=*

Anônimo disse...

Melhor que o tema da matéria é como ela foi escrita. Parabéns, Fernando! Admiro-t!

Hosana Souza disse...

MARAVILHOSA MATÉRIA! sem mais

Hosana Souza disse...

ps: finalmente consegui comentar!

Fernanda Andrade disse...

Fernando que matéria maravilhosa!!! Tanto o assunto como a forma abordada! Parabéns! ---------''Simplesmente acontece, inevitavelmente, em todos os lugares dessa complexa cidade das Terras Baixas'' --- Adoreeei!!! =*

Beatriz Carvalho disse...

Adorei a matéria,muito bem escrita também! =)

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