Por elas mesmas

sexta-feira, 16 de abril de 2010

por Luz Anna


E começou a 3ª edição do Iguacine, o único festival audiovisual realizado na Baixada Fluminense!

O pontapé inicial para essa jornada de arte e cultura foi dado ontem à noite, que ficará marcada para todo o sempre nos anais do Espaço Cultural Sylvio Monteiro. Com a presença de nomes consagrados como os cineastas Cacá Diegues e Jorge Duran, o Iguacine atraiu ainda os sete diretores que participaram da produção do "Cinco Vezes Favela - Agora por nós mesmos", que estavam em estado de graça com a indicação do filme para a Mostra Paralela de Cannes, o festival de cinema mais charmoso do mundo.


O filme, que fala do cotidiano de comunidades cariocas, é  dividido em cinco episódios dirigidos por sete jovens cineastas: Luciana Bezerra (“Acenda a luz”), Cacau Amaral e Rodrigo Felha(“Arroz com feijão”), Wagner Moraes e Manaíra Carneiro (“Fonte de Renda”), Cadu Barcellos (“Deixa voar”) e Luciano Vidigal (“Conserto para o violino”).

Oficinas
Moradores de favelas do Rio de Janeiro, todos eles participaram de  oficinas profissionalizantes de audiovisual ministradas por grandes nomes do cinema brasileiro, como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Daniel Filho, Walter Salles, Fernando Meirelles, João Moreira Salles e muitos outros. Os cinco filmes de ficção têm de cerca de 20 minutos cada um e mostram diferentes aspectos da vida em suas comunidades.

Presentes no Iguacine, as diretoras Manaíra Carneiro e Luciana Bezerra, embora muito requisitadas, falaram de forma clara sobre suas emoções e aprendizagens.

Em produções tradicionais,  a equipe  se reúne quinze dias antes das filmagens começarem. Mas esses jovens cineastas tiveram a oportunidade de, dois meses antes dos trabalhos, fazerem oficinas com os melhores profissionais da área. A paraibana Manaíra Carneiro diz até que ponto essas oficinas influenciaram seu trabalho à frente de "Fonte de Renda". “Esse processo  me fez acreditar mais em mim, pois  via profissionais renomados, que eu lia somente em livros, confiando no meu trabalho.”

Para a  diretora Luciana Bezerra, essa troca fez toda a diferença na criação  de “Acenda a luz”, pois lhe permitiu romper o solitário processo de criação de um diretor de. “Este filme foi mais do que um filme com sete diretores, foi um filme com olhares variados!”

Processo de identificação
Um dos aspectos mais badalados de "Cinco vezes favela - Agora por nós mesmos" é que, com ele, a favela está tendo, pela primeira na história do cinema brasileiro, a oportunidade de mostrar a si mesma. Essa foi a maior preocupação de Manaíra Carneiro, para quem o filme produzido por Cacá Diegues foi muito mais um processo de identificação com a comunidade do que um exercício de linguagem, complano, fotografia. “Há identificação das pessoas das comunidades, elas enxergavam seu cotidiano ali, busquei muito a identidade”, conta a diretora paraibana, a mais jovem da trupe. Essa identificação ficou clara para Luciana Bezerra numa madrugada muito fria, em que o grupo teve que ignorar os rigores do tempo por causa dos prazos industriais de uma produção com essa complexidade. “Havia uma comoção por estarmos ali nessas condições", lembra a cineasta, emocionada. "Então uma senhora veio trazendo um café, assim de uma maneira muito solidária. E foi muito bom sentir que de certa forma tocamos as pessoas."

Dividir a direção não foi uma experiêcia fácil para os jovens, que até então haviam trabalhado com seus próprios projetos. “Mas, com o resultado, vi que só somou”, admite  Manaíra Carneiro. Embora tenha sido criada no Vidigal, uma favela cujas guerras contra a Rocinha entraram para a crônica policial carioca, Luciana Bezerra é de opinião que a grande dificuldade do projeto foi filmar em áreas dominadas pelo tráfico de drogas. "Mas fomos muito bem acolhidos em todas as comunidades", garante a diretora, que é casada com o também diretor Gustavo Melo.

Luciana nasceu e se criou no lugar que serviu de cenário para sua história, que gira em torno das movimentações da comunidade para pressionar a concessionária de energia a garantir a luz na véspera de natal. "Isso traz uma noção que ali também tem pessoas que podem nos representar, com voz e ouvidos e isso traz uma responsabilidade muito grande pra mim, ver no olhar das pessoas uma esperança . As pessoas começam a te olhar assim como uma pessoa que tem voz!”

A diretora do Vidigal ainda estava emocionada com a notícia de que o “Cinco Vezes Favela - Agora por nós  mesmos” participaria da 63ª edição de Cannes, uma vitória com a qual ela havia sonhado muito. "Sou uma pessoa muito sonhadora e sabe quando você sonha muito uma coisa e essa coisa acontece e ai você não sabe muito como resolver... Ainda não sabemos como lida com isso, é especial!”

1 Comentários:

BEBEL disse...

“Há identificação das pessoas das comunidades, elas enxergavam seu cotidiano ali"...

Todos nós somos capazes de ver através da nossa realidade..o difícil é enxergar além............ para realmente sentir o que está por trás de nossas limitadas visões..
(BEBEL ROCHA)

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