Diálogo cultural

sábado, 24 de outubro de 2009

por Hosana Souza / Fotos: Josy Antunes


Apesar do grande atraso nessa quinta-feira, o deputado Alessandro Molon marcou presença na III Conferência Municipal de Cultura. Mesmo preso em dois engarrafamentos a caminho do Espaço Cultural Sylvio Monteiro e com sua agenda sempre lotada, ele fez questão de aceitar o convite de Ana Lúcia Pardo, representante do MINC no estado.

“Eu tenho participado o máximo que posso, ido em todas as conferências que são possíveis”, diz Molon, que acredita que a Baixada não pode mais ser vista como cidade dormitório. Para o deputado inicialmente é necessário o diálogo entre as ações culturais, a sociedade civil e o poder público. “Se a sociedade civil se mobiliza, suas conquistas serão valorizadas, e elas serão temidas pelo poder público”. Molon acredita que todas as cidades devem ser convocadas para discutir as verbas da cultura.

“Correndo o estado e observando os municípios, eu percebo que as propostas não devem ser dadas por nós, poder público. Elas já nascem nos municípios, daqueles que fazem a cultura acontecer nesses locais por quem conhece a realidade”. O deputado acalorou os debates e não parou em momento algum de enfatizar a importância da participação da população. Segundo o político, é justamente pela importância desses processos que se construirá um sistema nacional de cultura, e esse sistema deve ser criado de baixo para cima, isto é, da sociedade civil para os governos.

Conselho do poeta

por Edson Borges Vicente


Poeta desde os tempos obscuros da ditadura, Jorge Cardozo, 50 anos, vive hoje uma grande responsabilidade: presidir o Conselho Municipal de Cultura de Nova Iguaçu. Ele se entregou à arte em 1978, quando ingressou no Grupo ‘Calabouço’, grupo iguaçuano de resistência no qual fez teatro e poesia. Segundo Jorge, o grupo escolheu esse nome em homenagem ao restaurante onde foi morto o estudante Edson Luiz Lima Souto, assassinado em 1968, aos 18 anos, em uma operação de repressão, durante a ditadura militar.

Atual subsecretário de Cultura e presidente do conselho desde sua reorganização, em 2005, o poeta conselheiro busca levar a voz da democracia e resgatar a identidade da cultura popular. Jorge Cardozo diz estar totalmente afinado com a proposta de inclusão e participação do Ministério da Cultura – MinC. "Essa é uma proposta que entende que a cultura na verdade é de todo povo brasileiro”, afirma. Segundo ele, a proposta do MinC é a mesma da secretaria municipal.

Para o conselheiro, as mudanças na lei de incentivo à cultura – a Lei Rouanet - são muito importantes. E vão se tornar ainda melhores com a aprovação da chamada Pec 150, proposta de emenda constituicional por intermédio da qual 2% do orçamento federal serão alocados para a cultura. "Precisamos fortalecer o Fundo Nacional de Cultura e espalhar a presença do governo na esfera da cultura nos diferentes recantos do país, acabando com essa diferenciação tão forte que existia e ainda existe entre centro e periferia, entre cidade e bairro , entre zona urbana e rural ricos e pobres”.

Quadrilha também é cultura

por Larissa Leotério

Uma cultura muito forte e muito viva em Nova Iguaçu é a das quadrilhas de dança caipira. E estão muitíssimo bem representados na III Conferência Municipal de Cultura de Nova Iguaçu. Apesar das muitas deficiências e principalmente por causa delas, os componentes dos grupos vieram em peso.

É sobre essas deficiências que me conta Vagner Vinícius, de 32 anos, quadrilheiro de Jardim Pitoresco e membro da Liga Independente das Quadrilhas Juninas de Nova Iguaçu (LIQUAJUNI). “Somos nós que procuramos as costureiras, fazemos as alegorias”, conta, comparando com preparativos de uma escola de samba.

Engana-se quem pensa que só as quadrilhas só se articulam às vésperas das festas juninas. Os quadrilheiros se preparam o ano inteiro. Ensaiam com muita antecedência. “Temos muitas preocupações. Tem que ter coreografia, e coreografia atualizada. Não é a mesma coisa todos os anos”, conta.

Quando está tudo pronto, com as coreografias ensaiadas e as roupas costuradas, eles saem à procura de locais pra se apresentar. “Nós organizamos nossas festas, mas procuramos outros arraiás, pra divulgar”. Segundo Vagner, o maior problema é a falta de divulgação. Quando tem competições, nem sempre ficam sabendo, ou não podem participar. “Não temos apoio e não recebemos ajuda nenhuma”, afirma.

Alan Medeiros, de 19 anos e também morador de Jardim Pitoresco, conta quem há quadrilhas de 20 anos ou mais participando da LIQUAJUNI e que não tem divulgação nem o reconhecimento merecido: “Acho que poderiam nos dar pelo menos metade do reconhecimento que dão às escolas de samba”, desabafa Alan. Para ele, com essa ajuda viriam competições mais abertas e mais divulgadas, como o Carnaval de Nova Iguaçu, o segundo maior do Estado.

Outra liderança de grupo caipira que está presente é Telma Lúcia Brito, do grupo 'Estrela Guia', de Rosa dos Ventos. Telma fundou o grupo quando o já existente no bairro se desfez. “Já existia a cultura das quadrilhas. E quando o grupo que tinha acabou, as pessoas reclamaram muito”, conta. O grupo ‘Estrela Guia’, existente desde 2002, também pede mais apoio. “É uma luta custear tudo do próprio bolso”, diz com certo desânimo.

O presidente da LIQUAJUNI, João Gomes, foi quem contatou pelo menos um representante de cada um dos 20 grupos da Liga. Ele diz estar satisfeito com a conferência e com a democratização da cultura na cidade: “Agora eu volto a acreditar que pode dar certo”, confia. João Gomes, que participou ativamente no debate de diversidade cultural no primeiro dia da conferência, vai pedir auxílio na organização de competições e festivais. “Quadrilha também é cultura”. Afinal, todo mundo é cultura.

Um Edson*, um poeta e um conselho

por Edson Borges Vicente

Jovem repórter faz homenagem ao poeta Jorge Cardozo, presidente do Conselho Municipal de Cultura


De onde vem a força do poeta
Sobrevivendo em tempos obscuros
Tentando escapar do calabouço
e ver nascer o sol da liberdade?

Talvez venha do espírito de união
Da arte que o palco da vida ensina
Expressada nos espaços operários
Nas caras e nas bocas da cidade

E como imaginar tamanho feito
De ver raiar a luz da esperança
E das palavras tristes do poeta
Surgir a firme voz da liderança

E ao fim sentir que todos temos vida
Que a arte não está no cativeiro
Repousa sobre o velho e o moço
Desperta no coração da criança

Talvez se não morresse o tal menino
Ainda estivesse presa, a poesia
E a força e a garra do poeta
Fosse tal qual agulha no palheiro

Melhor é resistir à repressão
Seguir a cultura da ousadia
Viver do jeito que mais vale à pena
Conselhos de um poeta conselheiro

* Referência ao estudante Edson Luiz Lima Souto, assassinado em 1968, aos 18 anos, em uma operação de repressão, durante a ditadura militar (ver matéria 'Conselho do poeta')

A sala da diversidade

por Nany Rabello

A 5° mesa de debate da III Conferência de Cultura da Nova Iguaçu também pegou fogo. O tema, Gestão e Institucionalidade, foi abordado das mais dinâmicas maneiras e as propostas pareciam surgir a cada segundo, em meio à diversidade dos presentes. A sala que começou vazia terminou repleta não só de pessoas como de ideias e propostas, além de várias explicações e esclarecimentos sobre o que é a Gestão de Cultura.

Coordenada pela representante do Ministério da Cultura Ana Lúcia Prado, a relatora Deise não teve problemas na hora de organizar as propostas formalmente. A representante do MINC estava acompanhada de Marcelo Cavalcanti, subsecretário de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu, na mesa. Juntos, não deixavam nada passar em branco. “O difícil não é elaborar algo, o difícil é fazer com que se aprove o que foi elaborado”, diz Marcelo.

Parece que a sala incorporou a proposta de diversidade do secretário Marcos Vinícius Faustini, pois representantes de associações de moradores dos bairros de Nova Iguaçu, professoras, fotógrafos, e demais camadas de agentes culturais estavam representadas.

 
 
 
 
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