por Josy Antunes
Na sala recém-pintada de verde (cada parede em um tom), uma mulher de touca na cabeça fazia biscoitos amanteigados em formato de estrela. No sofá ao lado, com capa verde musgo, um homem careca assistia TV com o controle remoto na mão, oscilando os canais entre os filmes "Alvin e os esquilos", "Central do Brasil" e a Retrospectiva 2010 na Globo. Ao lado da estante da TV, num móvel abarrotado de fios e CDs, um jovem atendia às pressas todas as chamadas do MSN, num velho computador onde lia-se em letras vermelhas "Reservado!". A imagem podia ser interpretada como o trio que compõe o "Cataldu's buffet", localizado em Belford Roxo. Ou, ainda, minha mãe, meu pai e meu irmão. O dia 30 de dezembro trazia uma certeza: Eles não passariam o réveillon comigo. Isso porque, no ramo das festas, a data representa o recebimento da mais alta "paga", como diz o pai. Os três, o pai, a mãe e o irmão, irão passar a virada de 2010 pra 2011 na festa de uma igreja metodista no Catete. "Ia ser em lugar diferente. Teu pai ia trabalhar em Icaraí. Aí ele falou pra mim assim: 'você não acha melhor a gente trabalhar juntos?' E eu disse: 'é!'", explicou minha mãe. "Eu vou receber, né?". "É pra pagar as contas. Já está tudo contado". Ouvi em seguida, no diálogo entre mãe e pai. No total, os três juntos conseguirão R$500 reais em troca da noite de festa em família, substituída por trabalho. "É difícil, porque eu gosto da família reunida. Desde que minha mãe faleceu as comemorações ficaram mais difíceis. Mudou muito. Ela fazia as coisas... Eu sinto falta dela", soltou a mãe, num misto de lamento e alívio de poder depositar o vazio na festa do Catete. Ao mesmo tempo, lançava pequenas fagulhas de esporro ao pai, que não deixava o canal da TV se manter por 5 minutos. "Você não sabe o que quer", disse ele pra mãe, para quem a Retrospectiva da Globo é o ritual de todo fim de ano.