A cara do blog

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

por Lucas Lima



Dando uma parada na estressante tarde de debates do segundo dia da III Conferência Municipal de Cultura de Nova Iguaçu, o secretário de Cultura e Turismo Marcus Vinícius Faustini comandou o lançamento oficial do portal Cultura NI.

O portal é herdeiro da experiência do Jovem Repórter, que, tal qual o Cultura NI, tinha o formato de blog e era totalmente produzido pelos jovens da Secretaria de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu. “Quando demos início à gestão, percebemos que tínhamos que criar um projeto de jovens”, lembrou o secretário. Outro importante projeto envolvendo a juventude iguaçuana é a Escola de Pesquisa, coordenada pela antropóloga paulista Marcella Camargo.

O portal Cultura NI, coordenado pelo escritor Julio Ludemir, cobrirá as ações culturais da cidade e as políticas públicas formuladas pela SEMCTUR. “O blog vai acompanhar as diversas ações da Secretaria, da sociedade civil, eventos, personagens e personalidades”, anunciou o secretário. A ideia é mostrar a identidade cultural do município, para que os agentes e a própria população saibam o que está acontecendo.

Sutil presença

sábado, 24 de outubro de 2009

por Dariana Nogueira

Nos dois dias intensos da III Conferência Municipal de Cultura, foi possível notar a variedade de atores sociais que compõe Nova Iguaçu. Homens e mulheres com ideias, pensamentos e propostas diferentes se fizeram ouvir, buscando para além da representação política, a intervenção direta nos assuntos públicos.

Essa dinâmica pôde ser visualizada antes mesmo desses dois dias reservados para a conferência geral, nas pré-conferências que ocorreram em sete bairros da cidade.

Em todos os momentos, em meio às reivindicações, debates, discussões, tensões e aplausos, apenas um olhar mais atento conseguiria notar a presença sutil da jovem Karina Vasconcelos, de 22 anos, que participou ativamente, porém de maneira bastante silenciosa, de todos os eventos que cercaram esta III Conferência Municipal de Cultura.

Karina é moradora de Nova Iguaçu e cursa Produção Cultural no pólo da UFRJ em Nilópolis. Estagiária do Espaço Cultural Sylvio Monteiro, ela tornou-se responsável pela relatoria da III Conferência, no popular, ficou com a parte mais chata e mais fundamental do evento.

Segundo Karina, o relatório sistematiza tudo o que foi debatido durante a conferência geral e as pré- conferências, resultando na apresentação oficial do evento. Por isso vemos Karina no canto, com olhos vidrados na tela do notebook, ou anotando tudo em seu caderninho.

Ela lamenta por não poder participar diretamente das questões propostas, de não expor suas próprias ideias e opiniões sobre esse momento tão importante pelo qual a cidade está passando. Contudo, situa seu trabalho num grau de relevância bastante alto, além de reconhecer que tudo está servindo, inquestionavelmente, para o aperfeiçoamento de sua formação profissional.

Ou seja, a renúncia se dá por uma causa maior e reconhecemos isso agradecendo à Karina por seu esforço  e contribuição imprescindíveis.

Proposta e viagens

por Hosana Souza

Tarde de sábado, segundo e último dia da III Conferência Municipal de Cultura. O teatro do Espaço Cultural Sylvio Monteiro lota para as apresentações das propostas discutidas durante a conferência. Os 512 inscritos na Conferência foram divididos em cinco eixos, e cada eixo deveria trazer dez propostas, sendo duas delas prioritárias.

Entre tantas idéias e ideais destacaram-se positivamente, entre o público, a proposta do eixo 1 sobre a construção de um calendário oficial e anual dos eventos culturais da cidade. A proposta do eixo 2 que defende que os Pontinhos de Cultura sejam transformados em política pública e a proposta do eixo 3 que visa à concessão de imóveis, equipamentos, terrenos desapropriados há 10 anos para entidades culturais e comunidades tradicionais.

Entretanto, há também propostas, digamos, impalpáveis, como a construção de um sambódromo, de um museu e de um teatro em nosso município, que seja no mesmo nível dos já existentes no Rio de Janeiro, além da proposta da construção de editais para pessoas físicas, onde elas se inscreveriam e receberiam verba também, o que abriria a possibilidade de fraudes.

Olhos atentos à tradição

por Larissa Leotério e Jefferson Loyola

Quem nos mostra que é importante olhar pra dentro de Nova Iguaçu com olhos e ouvidos atentos é alguém que nem mora na cidade: é a Iyalorisá Isabel de Oyá. Zeladora do Ilê de Oyá há 22 anos, ela acredita que Belford Roxo, a cidade onde vive, ainda é muito dependente de Nova Iguaçu. “A gente só tem a ganhar buscando sabedoria”, diz ela, justificando sua visita à Conferência Municipal de Cultura na manhã deste domingo.

Sobre a importância de conferências e fóruns culturais, a Iyalorisá conta que é preciso fazer com que as pessoas sintam orgulho de sua religião: “Quando alguém esconde sua religião para se beneficiar de alguma coisa, já está tendo preconceito consigo mesmo”, afirma. Ela acredita também que o preconceito vai sempre existir, com quaisquer religiões ou movimentos. Mas os congressos ajudam a entender e a aceitar.

Além da aceitação, outra bandeira que mãe Isabel levanta é a da conservação da tradição cultural dentro das casas de santo. E é por meio do Pontinho de Cultura que ela tem em Belford Roxo, a Associação Cultural e Recreativa Afoxé Raízes Africanas. O Afoxé surgiu dentro de seu Ilê quando se desvinculou do Afoxé Filhos de Gandhi, no dia 8 de dezembro de 2002. Além de dezembro ser o mês das Iyabás, o Afoxé é dedicado a Oxum, em homenagem a sua falecida mãe de santo, Dona Délia de Oxum.

“Hoje, muitos não se preocupam com políticas públicas, como a institucionalização”, observa. Para participar de editais públicos, os Ilês precisam ter CNPJ. “Uma casa sem CNPJ é uma pessoa sem identidade”, compara. A regularização faz com que o governo tenha condições de auxiliar as casas de santo. “Orgulho-me hoje de ter 34 anos de iniciada no candomblé e ter recebido a Digina (nome ritual) que Oyá me trouxe: Oyáguerê”, finaliza.

A outra face da cidade

por Camilla Medeiros

No longo debate do GT (Grupo de Trabalho) do Eixo Cultura, Cidade e Cidadania, Josenir de Fátima da Silva, popularmente conhecida por Irmã Fátima, destacou uma informação que muito tem a dizer sobre a cara da nossa cidade: as áreas rurais.

No ano de 1997 uma deliberação da Prefeitura de Nova Iguaçu ignorou um dado muito concreto: Nova Iguaçu possui áreas rurais. A partir de então, iniciou-se uma luta para comprovar que Nova Iguaçu possui áreas rurais. Sindicatos, vereadores e a sociedade civil dessas áreas se mobilizaram e quase dez anos depois, 2006, o atual prefeito Lindberg Farias sancionou uma lei reconhecendo doze assentamentos rurais na cidade.

Numa entrevista informal, no pátio do Espaço Cultural Sylvio Monteiro, Irmã Fátima, Presidente da Associação Rural Regional de Campo Alegre, presidente da ONG Sociedade Beneficente de Campo Alegre e membro da Comissão de Cultura de Nova Iguaçu, revelou uma outra face da nossa cidade.
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Dentro das discussões da III Conferência Cultural, a inclusão de mais personagens no cenário cultural da cidade foi uma das pautas principais. Quais são as suas expectativas?

“Minha bandeira aqui é lutar pela integração entre as áreas rurais e urbanas de Nova Iguaçu. Dentro da mesma cidade temos esses dois mundos, que ficaram sem diálogo durante muito tempo. Certas coisas que acontecem num ambiente não são divulgadas no outro. Por exemplo, você sabia que essas áreas rurais de Nova Iguaçu foram excluídas? Muita gente aqui não sabe disso também.”

Como é o trabalho da sua ONG?

“Dentro da ONG temos uma creche comunitária chamada Centro de Educação Infantil Comunitário Semente do Amor. Através dessa, creche realizamos anualmente a Festa da Roça, para resgatar a identidade da gente de interior. Temos danças sertanejas, com forró, comida típicas. Não é festa junina não, é festa na roça mesmo! Além disso, todos os anos comemoramos o aniversário do nosso assentamento. No dia 9 de janeiro, reunimos todos os moradores para um grande café da manhã, com os produtos da terra, que a comunidade cultiva. Nesse dia fazemos questão de lembrar os mais novos da luta que foi para conquistar a terra, e nos mobilizamos frente o governo para reivindicar as mudanças, e fazer um balanço do que foi feito, do que andou, do que não andou. Além de chamar a mídia para expor tudo o que é feito.”

Qual foi o resultado dessa exclusão dos doze assentamentos de Nova Iguaçu?

“Quando aconteceu essa exclusão, não tínhamos nenhuma ligação com a cidade a não ser o nome. Isso só consolidou a realidade que já existia. Sempre nos deportávamos para Queimados para tudo, médico, compras, enfim, a única coisa que ligava nossa região à cidade era uma escola da prefeitura de Nova Iguaçu, pois nem ônibus para cá temos. Até hoje precisamos ir para Queimados e depois vir para Nova Iguaçu.

A maioria das pessoas transferiu seus títulos eleitorais para Queimados, que foi a cidade que acolheu essa comunidade. Como eu vou votar em uma cidade que me excluiu? Até eu mesmo transferi meu título para Queimados.”

Qual foi o resultado do reconhecimento desses doze assentamentos?

“Quando o prefeito Lindberg Farias assinou a lei que reconheceu nossa região, imediatamente percebemos as mudanças. Não falo isso para engrandecer ninguém, mas depois de tanto tempo abandonados essa ida do prefeito a Campo Alegre foi essencial para que a gente se identificasse mais com a cidade. E soubéssemos que nossa existência para a cidade era importante. Formou-se uma aliança entre a nossa comunidade e a Prefeitura de Nova Iguaçu. Atualmente temos uma sessão eleitoral em Campo Alegre, da qual eu fui convidada para ser presidente, e todos votam em Nova Iguaçu novamente. Mas antes mesmo que tivéssemos essa sessão, a comunidade se interessou em transferir de volta seus títulos para a cidade, pois estávamos preocupadas com a possível mudança na gestão da Prefeitura, e o retrocesso frente aos avanços que conseguimos.”

Que impressão teve dessa conferência?

“Creio que o meu objetivo foi cumprido. As áreas rurais estão sendo visadas nessas propostas, e espero que a gente possa partilhar em breve da mesma política de incentivo cultural que as áreas urbanas possuem.”

 
 
 
 
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